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Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2018

"Trova do Vento que Passa" | Manuel Alegre

"Trova do Vento que Passa" A António Portugal  Pergunto ao vento que passa  notícias do meu país  e o vento cala a desgraça  o vento nada me diz.  Pergunto aos rios que levam  tanto sonho à flor das águas  e os rios não me sossegam  levam sonhos deixam mágoas.  Levam sonhos deixam mágoas  ai rios do meu país  minha pátria à flor das águas  para onde vais? Ninguém diz.  Se o verde trevo desfolhas  pede notícias e diz  ao trevo de quatro folhas  que morro por meu país.  Pergunto à gente que passa  por que vai de olhos no chão.  Silêncio - é tudo o que tem  quem vive na servidão.  Vi florir os verdes ramos  direitos e ao céu voltados.  E a quem gosta de ter amos  vi sempre os ombros curvados.  E o vento não me diz nada  ninguém diz nada de novo.  Vi minha pátria pregada  nos braços em cruz do povo.  Vi meu poema na margem  dos rios que vão pró mar  como quem ama a viagem  mas tem sempre de ficar. 

"Luís Vaz de Camões | Uno Poeta" - Ró Mar

Foto © Ró Mar - Camões | Portugal "Luís Vaz de Camões | Uno Poeta" O meu maior beijo vai para a língua portuguesa  Que assenta muito bem p'lo céu duma alma genial!  P'lo mar dos descobrimentos encontro com certeza O grã génio das letras - Luís Vaz de Camões | Poeta Que se fez p'lo caminho à história de Portugal: Mergulhando a fina pena em mares não navegados,  Conquistando a nova-esperança, testemunha os heróis  P'la epopeia, que em meus olhos acende tal dois faróis: Um em Terra, outro além-mar - uno abraço ao Mestre  Que canta Vida - "Os Lusíadas": p'los dez cantos Leio a sapiência duma só alma e tamanha pátria Exaltada pelo soneto que enxerga pura poesia. Singela homenagem que componho, em orla terrestre, Crendo que vale a pena sonhar Vida, num tempo real E em sentido inverso [do mar prá terra], Salve Portugal! O meu maior beijo vai para além-mar [céu] | Uno Poeta. © Ró Mar http://ro-mar-poesi

Sermão de Santo António aos Peixes | Padre António Vieira

Foto © Ró Mar | Museu de Santo António | Lisboa Sermão de Santo António aos Peixes V Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós. E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos; e se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos p

"UM PIANO NA MINHA RUA..." | Fernando Pessoa

"UM PIANO NA MINHA RUA..." Um piano na minha rua… Crianças a brincar… O sol de domingo e a sua... Alegria a doirar… A mágoa que me convida A amar todo o indefinido… Eu tive pouco na vida Mas dói-me tê-lo perdido. Mas já a vida vai alta Em muitas mudanças! Um piano que me falta E eu não ser as crianças! Fernando Pessoa, Poesias

"Alma Minha Gentil, que te Partiste" | Luís de Camões

"Alma Minha Gentil, que te Partiste" Alma minha gentil, que te partiste  Tão cedo desta vida descontente,  Repousa lá no Céu eternamente,  E viva eu cá na terra sempre triste.  Se lá no assento Etéreo, onde subiste,  Memória desta vida se consente,  Não te esqueças daquele amor ardente,  Que já nos olhos meus tão puro viste.  E se vires que pode merecer-te  Algũa cousa a dor que me ficou  Da mágoa, sem remédio, de perder-te,  Roga a Deus, que teus anos encurtou,  Que tão cedo de cá me leve a ver-te,  Quão cedo de meus olhos te levou.  Sonetos, Luís Vaz de Camões

Os Maias - Eça de Queirós

Palácio Ramalhete | Janelas Verdes - Lisboa - Portugal Os Maias   I A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha, decerto, de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de