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A história do miúdo e da miúda - Ângela Caboz

A história do miúdo e da miúda - 2° capítulo 


       A vida inteira vivi de ontens! A vida inteira gritei por futuros!
Nunca quis olhar para o presente, nem me dei ao luxo de viver o hoje. Os meus olhos sempre estiveram postos no passado. Os meus sonhos eram projectados para um futuro, que sempre julguei incerto. Não me sobrava tempo para visitar o dia que passeava ali, à minha frente. Não tinha nem vontade, nem motivação para viver.
      A vida inteira pisei sonhos. Vivi nas asas das minhas ilusões. Fiz dos sonhos o relógio da vida. Eram eles que definiam os dias que iam passando e os que faltavam chegar. A minha vida eram sonhos passados e desejos sempre adiados.
       É verdade vida, quem vive de sonhos, na realidade, não chega a viver.
     Eu nem sequer me lembro de como foram os meus últimos anos. Foram dias passados, entre as lamentações do que perdi e a procura do que não sei se um dia chegará até mim. Não vi que cada dia que ia passando era um patamar da escada da vida, que eu teimava em não subir com medo das quedas que evita dar. Queria fugir das dores, julgando que o viver era apenas sofrimento.
      O que fiz então, com o que tinha e nem reparei. Nada, absolutamente nada. Assim, realmente ninguém vive.
      Perdi tanto tempo, desse tempo infinito, não vivendo. Perdi tanto tempo, que continuo uma criança tola e não realidade já sou quase uma velha. Não tenho vivências, apenas somei anos. Adicionei anos de desenganos, anos que se somaram a idade de quem não encontrou a porta para entrar nesse futuro, tão sonhado e nunca encontrado. Sonhos passados que todos os dias eram adiados. Perdi tempo a olhar para as horas, pensando que assim as poderia enganar.
      Tu vida, até podias ter pena de mim e fazer com que o tempo parasse um pouco, fazer com que o tempo não passasse sempre assim tão rápido. Podias pará-lo, para que eu me equilibrasse na idade. Para que ajustasse o que penso com o que sou. Agora que sei o que é viver, tenho algumas coisas para colocar em ordem. Pequenas coisas que não fiz e que agora me fazem falta. Sabes é que o meu tempo está um pouco desajustado do teu.
      Podias dar-me essa ajuda vida. Caí tantas vezes e continuo com os joelhos esfolados. Aprendi a levantar-me por mim, seja ajuda, e começo agora a ficar mais forte do que uma rocha. Por isso, tu devias dar-me essa última oportunidade de viver passados que eu própria adiei.
     Eu sei que o tempo não volta ao que já foi. Eu sei que me vai dizer isso, mas eu tenho vontade de viver hoje o que ontem pensei que ainda era futuro. É esse o meu pedido, que me deixes viver.
      A vida não são ontens! A vida é hoje e agora.
    Essa é uma verdade nua e crua. A vida é para ser comida à mão sem qualquer formalidade. Só assim ela será uma realidade e não um desperdício. A vida é a lei do destino. Uma história onde não existem rascunhos. Tudo é uma peça de teatro sem qualquer encenação.
      Escuta-me por isso vida, dá-me esse tempo de que tanto preciso para viver este amor, que chegou talvez ainda a tempo, de saciar o coração que estava com fome de amar. Deixa-me saborear cada segundo desta paixão que me fez descobrir que afinal sou um corpo com vida que ainda sente desejo.

Ângela Caboz

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UNO LITERÁRIO

"UM PIANO NA MINHA RUA..." | Fernando Pessoa

"UM PIANO NA MINHA RUA..." Um piano na minha rua… Crianças a brincar… O sol de domingo e a sua... Alegria a doirar…
A mágoa que me convida A amar todo o indefinido… Eu tive pouco na vida Mas dói-me tê-lo perdido.
Mas já a vida vai alta Em muitas mudanças! Um piano que me falta E eu não ser as crianças!
Fernando Pessoa, Poesias