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O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago

O Ano da Morte de Ricardo Reis 

     Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, com uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boulogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia.
[...]
   As crianças estrangeiras, a quem mais largamente dotou a natureza da virtude da curiosidade, querem saber o nome do lugar, e os pais informam-nas, ou declinam-no as amas, as nurses, as bonnes, as fräuleins, ou um marinheiro que passava para ir à manobra, Lisboa, Lisbon, Lisbonne, Lissabon, quatro diferentes maneiras de enunciar, fora as intermédias e imprecisas, assim ficaram os meninos a saber o que antes ignoravam, e isso foi o que já sabiam, nada, apenas um nome, aproximativamente pronunciado, para maior confusão das juvenis inteligências, com a acento próprio de argentinos, se deles se tratava, ou de uruguaios, brasileiros e espanhóis, que, escrevendo certo Lisboa no castelhano ou português de cada qual, dizem cada um sua coisa, fora do alcance do ouvido comum e das imitações da escrita. Quando amanhã cedo o Highland Brigade sair a barra, que ao menos haja um pouco de sol e de céu descoberto, para que a parda neblina deste tempo astroso não obscureça por completo, anda à vista de terra, a memória já esvaecente dos viajantes que pela primeira vez aqui passaram, estas crianças que repetem Lisboa, por sua própria conta transformando o nome noutro nome, aqueles adultos que franzem o sobrolho e se arrepiam com a geral humidade que repassa as madeiras e os ferros, como se o Highland Brigade viesse a escorrer do fundo do mar, navio duas vezes fantasma.
   Por gosto e vontade, ninguém haveria de querer ficar neste porto.
  São poucos os que vão descer. O vapor atracou, já arrearam a escada do portaló, começam a mostrar-se em baixo, sem pressa, os bagageiros e os descarregadores, saem do refúgio dos alpendres e guaritas os guardas-fiscais de serviço, assomam os alfandegueiros. A chuva abrandou, só quase nada. Juntam-se no alto da escada os viajantes, hesitando, como se duvidassem de ter sido autorizado o desembarque, se haverá quarentena, ou temessem os degraus escorregadios, mas é a cidade silenciosa que os assusta, porventura morreu a gente nela e a chuva só está caindo para diluir em lama o que ainda ficou de pé. Ao comprido do cais, outros barcos atracados luzem mortiçamente por trás das vigias baças, os paus-de-carga são ramos esgalhados de árvores, negros, os guindastes estão quietos. É domingo. Para além dos barracões do cais começa a cidade sombria, recolhida em frontarias e muros, por enquanto ainda defendida da chuva, acaso movendo uma cortina triste e bordada, olhando para fora com olhos vagos, ouvindo gorgolhar a água dos telhados, algeroz abaixo, até ao basalto das valetas, ao calcário nítido dos passeios, às sarjetas pletóricas, levantadas algumas, se houve inundação. 
    Descem os primeiros passageiros. De ombros encurvados sob a chuva monótona, trazem sacos e maletas de mão, e têm o ar perdido de quem viveu a viagem como um sonho de imagens fluídas, entre mar e céu, o metrónomo da proa a subir e a descer, o balanço da vaga, o horizonte hipnótico. Alguém transporta ao colo uma criança, que pelo silêncio portuguesa deve ser, não se lembrou de perguntar onde está, ou avisaram-na antes, quando, para adormecer depressa no beliche abafado, lhe prometeram uma cidade bonita e um viver feliz, outro conto de encantar, que a estes não correram bem os trabalhos da emigração. E uma mulher idosa, que teima em abrir um guarda-chuva, deixa cair a pequena caixa de folha verde que trazia debaixo do braço, com forma de baú, e contra as pedras do cais foi desfazer-se o cofre, solta a tampa, rebentado o fundo, não continha nada de valor, só coisas de estimação, uns trapos coloridos, umas cartas, retratos que voaram, umas contas que eram de vidro e se partiram, novelos brancos agora maculados, sumiu-se um deles entre o cais e o costado do barco, é uma passageira da terceira classe.
   Consoante vão pondo pé em terra, correm a abrigar-se, os estrangeiros murmuram contra o temporal, como se fôssemos nós os culpados deste mau tempo, parece terem-se esquecido de que nas franças e inglaterras deles costuma ser bem pior, enfim, a estes tudo lhes serve para desdenharem dos pobres países, até a chuva natural, mais fortes razões teríamos nós de nos queixarmos e aqui estamos calados, maldito inverno este, o que por ai vai de terra arrancada aos campos férteis, e a falta que ela nos faz, sendo tão pequena a nação. Já começou a descarga das bagagens, sob as capes rebrilhantes os marinheiros parecem manipanços de capuz, e em baixo os bagageiros portugueses mexem-se mais à ligeira, é o bonezinho de pala, a veste curta, de oleado, assamarrada, mas tão indiferentes à grande molha que o universo espantam, talvez este desdém de confortos leve a compadecerem-se as bolsas dos viajantes, porta-moedas como se diz agora, e suba com a compaixão a gorjeta, povo atrasado, de mão estendida, vende cada um o que tiver de sobejo, resignação, humildade, paciência, assim continuemos nós a encontrar quem de tais mercadorias faça no mundo comércio. Os viajantes passaram à alfândega, poucos como se calculava, mas vai levar seu tempo saírem dela, por serem tantos os papéis a escrever e tão escrupulosa a caligrafia dos aduaneiros de piquete, se calhar os mais rápidos descansam ao domingo. A tarde escurece e ainda agora são quatro horas, com um pouco mais de sombra se faria a noite, porém aqui dentro é como se sempre o fosse, acesas durante todo o dia as fracas lâmpadas, algumas queimadas, aquela está há uma semana assim e ainda não a substituíram. As janelas, sujas, deixam transluzir uma claridade aquática. O ar carregado cheira a roupas molhadas, a bagagens azedas, à serapilheira dos fardos, e a melancolia alastra, faz emudecer os viajantes, não há sombra de alegria neste regresso. A alfândega é uma antecâmara, um limbo de passagem, que será lá fora. 
     Um homem grisalho, seco de carnes, assina os últimos papéis, recebe as cópias deles, pode-se ir embora, sair, continuar em terra firme a vida. Acompanha-o um bagageiro cujo aspecto físico não deve ser explicado em pormenor, ou teríamos de prosseguir infinitamente o exame, para que não se instalasse a confusão na cabeça de quem viesse a precisar de distinguir um do outro, se tal se requer, porque deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada, como daquele foi dito já, contudo tão diferentes, passageiro um, bagageiro outro. Carrega este a mala grande num carrinho metálico, as duas outras, pequenas em comparação, suspendeu-as do pescoço com uma correia que passa pela nuca, como um jugo ou colar de ordem. Cá fora, sob a protecção do beiral largo, pousa a carga no chão e vai procurar um táxi, não costuma ser necessário, habitualmente há-os por ali, à chegada dos vapores. O viajante olha as nuvens baixas, depois os charcos no terreno irregular, as águas da doca, sujas de óleos, cascas, detritos vários, e é então que repara em uns barcos de guerra, discretos, não contava que os houvesse aqui, pois o lugar próprio desses navegantes é o mar largo, ou, não sendo o tempo de guerra ou de exercícios dela, no estuário, largo de sobra para dar fundeadouro a todas as esquadras do mundo, como antigamente se dizia e talvez ainda hoje se repita, sem cuidar de ver que esquadras são. Outros passageiros saíam da alfândega, acolitados pelos seus descarregadores, e então surgiu o táxi espadanando águas debaixo das rodas.
[...]
     O bagageiro levanta o boné e agradece, o táxi arranca, o motorista quer que lhe digam, Para onde, e esta pergunta, tão simples, tão natural, tão adequada à circunstância e ao lugar, apanha desprevenido o viajante, como se ter comprado a passagem no Rio de Janeiro tivesse sido e pudesse continuar a ser resposta para todas as questões, mesmo aquelas, passadas, que em seu tempo não encontraram mais que o silêncio, agora mal desembarcou logo vê que não, talvez porque lhe fizeram uma das duas perguntas fatais, Para onde, a outra, e pior, seria, Para quê. O motorista olhou pelo retrovisor, julgou que o passageiro não ouvira, já abria a boca para repetir, Para onde, mas a resposta chegou primeiro, ainda irresoluta, suspensiva, Para um hotel, Qual, Não sei, e tendo dito, Não sei, soube o viajante o que queria, com tão firme convicção como se tivesse levado toda a viagem a ponderar a escolha, Um que fique perto do rio, cá para baixo, Perto do rio só se for o Bragança, ao princípio da Rua do Alecrim, não sei se conhece, Do hotel não me lembro, mas a rua sei onde é, vivi em Lisboa, sou português, Ah, é português, pelo sotaque pensei que fosse brasileiro, Percebe-se assim tanto, Bom, percebe-se alguma coisa, Há dezasseis anos que não vinha a Portugal, Dezasseis anos são muitos, vai encontrar grandes mudanças por cá, e com estas palavras calou-se bruscamente o motorista. 
    Ao viajante não parecia que as mudanças fossem tantas. A avenida por onde seguiam coincidia, no geral, com a memória dela, só as árvores estavam mais altas, nem admira, sempre tinham sido dezasseis anos a crescer, e mesmo assim, se na opaca lembrança guardava frondes verdes, agora a nudez invernal dos ramos apoucava a dimensão dos renques, uma coisa dava para a outra. 
    A chuva rareara, só algumas gotas dispersas caíam, mas no espaço não se abrira nem uma frincha de azul, as nuvens não se soltaram umas das outras, fazem um extensíssimo e único tecto cor de chumbo. Tem chovido muito, perguntou o passageiro, É um dilúvio, há dois meses que o céu anda a desfazer-se em água, respondeu o motorista, e desligou o limpa-vidros. Poucos automóveis passavam, raros carros eléctricos, um ou outro pedestre que desconfiadamente fechava o guarda-chuva, ao longo dos passeios grandes charcos formados pelo entupimento das sarjetas, porta com porta algumas tabernas abertas, labregas, as luzes viscosas cercadas de sombra, a imagem taciturna de um copo sujo de vinho sobre um balcão de zinco. Estas frontarias são a muralha que oculta a cidade, e o táxi segue ao longo delas, sem pressa, como se andasse à procura duma brecha, dum postigo, duma parta da traição, a entrada para o labirinto. Passa devagar o comboio de Cascais, travando preguiçoso, ainda vinha com velocidade bastante para ultrapassar o táxi, mas fica para trás, entra na estação quando o automóvel já está a dar a volta ao largo, e o motorista avisa, O hotel é aquele, à entrada da rua. 
   Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos eléctricos. O passageiro saiu, olhou o café de relance, Royal de seu nome, exemplo comercial de saudades monárquicas em tempo de república, ou remanescência do último reinado, aqui disfarçado de inglês ou francês, curioso caso este, olha-se e não se sabe como dizer a palavra, se roial ou ruaiale, teve tempo de debater a questão porque já não chovia e a rua é a subir, depois imaginou-se regressando do hotel, com quarto ou ainda sem ele, e do táxi nem sombra, desaparecido com as bagagens, as roupas, os objectos de uso, os seus papéis, e a si mesmo perguntou como viveria se o privassem desses e todos os outros bens. Já ia vencendo os degraus exteriores do hotel quando compreendeu, por estes pensamentos, que estava muito cansado, era o que sentia, uma fadiga muito grande, um sono da alma, um desespero, se sabemos com bastante suficiência o que isso seja para pronunciar a palavra e entendê-la. 
   A porta do hotel, ao ser empurrada, fez ressoar um besouro eléctrico, em tempos teria havido uma sineta, derlim derlim, mas há sempre que contar com o progresso e as suas melhorias. havia um lança de escada empinado, e sobre o arranque do corrimão, em baixo, uma figura de ferro fundido levantava no braço direito um globo de vidro, representando, a figura, um pajem em trajo de corte, se a expressão ganha com a repetição alguma coisa, se não é pleonástica, pois ninguém se lembra de ter visto pajem que não estivesse em trajo de corte, para isso é que são pajens, mais explicativo seria ter dito, Um pajem trajado de pajem, pelo talhe das roupas, modelo italiano, renascença. O viajante trepou os intérminos degraus, parecia incrível ter de subir tanto para alcançar um primeiro andar, é a ascensão do Everest, proeza ainda sonho e utopia de montanheiros, o que lhe valeu foi ter aparecido no alto um homem de bigodes com uma palavra animadora, upa, não a diz, mas assim pode ser traduzido o seu modo de olhar e debruçar-se do alcandorado patamar, a indagar que bons ventos e maus tempos trouxeram este hóspede, Boas tardes, senhor, Boas tardes, não chega o fôlego para mais, o homem de bigodes sorri compreensivamente, Um quarto, e o sorriso agora é de quem pede desculpa, não há quartos neste andar, aqui é a recepção, a sala de jantar, a sala de estar, lá para dentro cozinha e copa, os quartos ficam em cima, por isso vamos ter de subir ao segundo andar, este aqui não serve porque é pequeno e sombrio, este também não porque a janela dá para as traseiras, estes estão ocupados, Gostava era de um quarto de onde pudesse ver o rio, Ah, muito bem, então vai gostar do duzentos e um, ficou livre esta manhã, mostro-lho já.
[...]
     Desceram ao primeiro andar, e o gerente chamou um empregado, moço dos recados e homem dos carregos, que fosse buscar a bagagem deste senhor, O táxi está à espera defronte do café, e o viajante desceu com ele, para pagar a corrida, ainda se usa hoje esta linguagem de cocheiro e sota, e verificar que nada lhe faltava, desconfiança mal encaminhada, juízo imerecido, que o motorista é pessoa honesta e só quer que lhe paguem o que o contador marca, mais a gorjeta do costume. Não vai ter a sorte do bagageiro, não haverá outras distribuições de pepitas, porque entretanto trocou o viajante na recepção algum do seu dinheiro inglês, não que a generosidade nos canse, mas uma vez não são vezes, e ostentação é insulto aos pobres. 
    A mala pesa muito mais do que o meu dinheiro, e quando ela alcança o patamar, o gerente, que ali estava esperando e vigilando o transporte, fez um movimento de ajuda, a mão por baixo, gesto simbólico como o lançamento duma primeira pedra, que a carga vinha subindo toda às costas do moço, só moço de profissão, não de idade, que essa já carrega, carregando ele a mala e pensando dela aquelas primeiras palavras, de um lado e do outro amparado pelos escusados auxílios, o segundo, igualzinho, dava-lho o hóspede, dorido da força que via fazer. Já lá vai a caminho do segundo andar, É o duzentos e um, ó Pimenta, desta vez o Pimenta está com sorte, não tem de ir aos andares altos, e enquanto ele sobe tornou o hóspede a entrar na recepção, um pouco ofegante do esforço, pega na caneta, e escreve no livro das entradas, a respeito de si mesmo, o que é necessário para que fique a saber-se quem diz ser, na quadrícula do riscado e pautado da página, nome Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, Brasil, donde procede, viajou pelo Highland Brigade, parece o princípio duma confissão, duma autobiografia íntima, tudo o que é oculto se contém nesta linha manuscrita, agora o problema é descobrir o resto, apenas. E o gerente, que estivera de pescoço torcido para seguir o encadeamento das letras e decifrar-lhes, acto contínuo, o sentido, pensa que ficou a saber isto e aquilo, e diz, Senhor doutor, não chega a ser vénia, é um selo, o reconhecimento de um direito, de um mérito, de uma qualidade, o que requer uma imediata retribuição, mesmo não escrita, O meu nome é Salvador, sou o responsável do hotel, o gerente, precisando o senhor doutor de qualquer coisa, só tem que me dizer, A que horas se serve o jantar, O jantar é às oito, senhor doutor, espero que a nossa cozinha lhe dê satisfação, temos também pratos franceses. O doutor Ricardo Reis admitiu com um aceno de cabeça a sua própria esperança, pegou na gabardina e no chapéu, que pousara numa cadeira, e retirou-se. 
    O moço estava à espera, do lado de dentro do quarto, com a porta aberta. Ricardo Reis viu-o da entrada do corredor, sabia que, em lá chegando, o homem iria avançar a mão serviçal, mas também imperativa, na proporção do peso da carga, e enquanto caminhava notou, não se apercebera antes, que só havia portas de um lado, o outro era a parede que formava a caixa da escada, pensava nisto como se tratasse de uma importante questão que não deveria esquecer, realmente estava muito cansado. 
[...]
    Ricardo Reis senta-se numa cadeira, passa os olhos em redor, é aqui que irá viver não sabe por quantos dias, talvez venha a alugar casa e instalar consultório, talvez regresse ao Brasil, por agora o hotel bastará, lugar neutro, sem compromisso, de trânsito e vida suspensa. Para além das cortinas lisas, as janelas tornaram-se de repente luminosas, são os candeeiros da rua. Tão tarde já. Este dia acabou, o que dele resta paira longe sobre o mar e vai fugindo, ainda há tão poucas horas navegava Ricardo Reis por aquelas águas, agora o horizonte está aonde o seu braço alcança, paredes, móveis que reflectem a luz como um espelho negro, e em vez do pulsar profundo das máquinas do vapor, ouve o sussurro, o murmúrio da cidade, seiscentas mil pessoas suspirando, gritando longe, agora uns passos cautelosos no corredor, uma voz de mulher que diz; Já lá vou, deve ser criada, estas palavras, esta voz. Abriu uma das janelas, olhou para fora. A chuva parara. O ar fresco, húmido do vento que passou sobre o rio, entra pelo quarto dentro, corrige-lhe a atmosfera fechada, como de roupa por lavar em gaveta esquecida, um hotel não é uma casa, convém lembrar outra vez, vão-lhe ficando cheiros deste e daquela, uma suada insónia, uma noite de amor, um sobretudo molhado, o pó dos sapatos escovados na hora da partida, e depois vêm as criadas fazer as camas de lavado, varrer, fica também o seu próprio halo de mulheres, nada disto se pode evitar, são os sinais da nossa humanidade.
[...]
     E há papéis para guardar, estas folhas escritas com versos, datada a mais antiga de doze de Junho de mil novecentos e catorze, vinha aí a guerra, a Grande, como depois passaram a chamar-lhe enquanto não faziam outra maior, Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos, se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores, e seguindo concluía, Da vida iremos tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido. Não é assim, de enfiada, que estão escritos, cada linha leva seu verso obediente, mas desta maneira, contínuos, eles e nós, sem outra pausa que a da respiração e do canto, é que os lemos, e a folha mais recente de todas tem a data de treze de Novembro de mil novecentos e trinta e cinco, passou mês e meio sobre tê-la escrito, ainda folha de pouco tempo, e diz, Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão o que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser. Juntou os papéis, vinte anos dia sobre dia, folha após folha, guardou-os numa gaveta da pequena secretária, fechou as janelas, e pôs a correr a água quente para se lavar. Passava um pouco das sete horas. Pontual, quando ainda ecoava a última pancada das oito no relógio de caixa alta que ornamentava o patamar da recepção, Ricardo Reis desceu à sala de jantar. O gerente Salvador sorriu, levantando o bigode sobre os dentes pouco limpos, e correu a abrir-lhe a porta dupla de painéis de vidro, monagramados com um H e um B entrelaçados de curvas e contracurvas, de apêndices e alongamentos vegetalistas, de reminiscências de acantos, palmetas, folhagens enroladas, assim dignificando as artes aplicadas o trivial ofício hoteleiro. O maitre saiu-lhe ao caminho, não estavam outros hóspedes na sala, só dois criados que acabavam de pôr as mesas, ouviam-se rumores de copa atrás doutra porta monogramada, por ali entrariam daí a pouco as terrinas, os pratos cobertos, as travessas. O mobiliário é o que costuma ser, quem viu uma destas salas de jantar viu todas, excepto quando o hotel for de luxo, e não é este o caso, umas frouxas luzes no tecto e nas paredes, uns cabides, toalhas brancas nas mesas, alvíssimas, é o brio da gerência, curadas de lixívia na lavandaria, senão na lavadeira de Caneças, que não usa mais que sabão e sol, com tanta chuva, há tantos dias, há-de ter o rol atrasado. Sentou-se Ricardo Reis, o maitre diz-lhe o que há para comer, a sopa, o peixe, a carne, salvo se o senhor doutor preferir a dieta, isto é, outra carne, outro peixe, outra sopa, eu aconselharia, para começar a habituar-se a esta nova alimentação, recém-chegado do trópico depois duma ausência de dezasseis anos, até isto já se sabe na sala de jantar e na cozinha. A porta que dá para a recepção foi entretanto empurrada, entrou um casal com dois filhos crianças, menino, menina, cor de cera eles, sanguíneos os pais, mas todos legítimos pelas parecenças, o chefe da família à frente, guia da tribo, a mãe tocando as crias que vão no meio. Depois apareceu um homem gordo, pesado, com uma corrente de ouro atravessada sobre o estômago, de bolsinho a bolsinho do colete, e logo a seguir outro homem, magríssimo, de gravata preta e fumo no braço, ninguém mais entrou durante este quarto de hora, ouvem-se os talheres tocando os pratos, o pai dos meninos, imperioso, bate com a faca no copo para chamar v criado, o homem magro, ofendido no luto e na educação, fita-o severamente, o gordo mastiga, plácido. Ricardo Reis contempla as olhas da canja de galinha, acabou por escolher a dieta, obedeceu à sugestão, por indiferença, não por lhe ter encontrado particular vantagem. Um rufar nas vidraças advertiu-o de que recomeçara a chover. Estas janelas não dão para a Rua do Alecrim, que rua será, não se recorda, se alguma vez o soube, mas o criado que vem mudar o prato explica, Aqui é a Rua Nova do Carvalho, senhor doutor, e perguntou, Então, gostou da canja, pela pronúncia se vê que o criado é galego, Gostei, pela pronúncia já se tinha visto que o hóspede viveu no Brasil, boa gorjeta apanhou-a o Pimenta. A porta abriu-se outra vez, agora entrou um homem de meia-idade, alto, formal, de rosto comprido e vincado, e uma rapariga de uns vinte anos, se os tem, magra, ainda que mais exacto seria dizer delgada, dirigem-se para a mesa fronteira à de Ricardo Reis, de súbito tornara-se evidente que a mesa estava à espera deles, como um objecto espera a mão que frequentemente o procura e serve, serão hóspedes habituais, talvez os donos do hotel, é interessante como nos esquecemos de que os hotéis têm dono, estes, sejam-no ou não, atravessaram. a sala num passo tranquilo como se estivessem em sua própria casa, são coisas que se notam quando se olha com atenção. A rapariga fica de perfil, o homem está de costas, conversam em voz baixa, mas o tom dela subiu quando disse, Não, meu pai, sinto-me bem, são portanto - pai e filha, conjunção pouco costumada em hotéis, nestas idades. O criado veio servi-los, sóbrio mas familiar de modos, depois afastou-se, agora a sala está silenciosa, nem as crianças levantam as vozes, estranho caso, Ricardo Reis não se lembra de as ter ouvido falar, ou são mudas, ou têm os beiços colados, presos por agrafes invisíveis, absurda lembrança, se estão comendo. A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, ausentes. Ricardo Reis sente um arrepio, é ele quem o sente, ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da pele se arrepia, e olha fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há-de ir se a não levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja aquele senhor doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por estar desse lado e ser canhota, inábil, inerte, mão morta mão morta que não irás bater àquela porta. Ricardo Reis observa que os pratos da rapariga vêm já arranjados da copa, limpo de espinhas o peixe, cortada a carne, descascada e aberta a fruta, é patente que filha e pai são hóspedes conhecidos, costumados na casa, talvez vivam mesmo no hotel. Chegou ao fim da refeição, ainda se demora um pouco, a dar tempo, que tempo e para quê, enfim levantou-se, afasta a cadeira, e o rumor do arrastamento, acaso excessivo, fez voltar-se o rosto da rapariga, de frente tem mais que os vinte anos que antes parecera, mas logo o perfil a restitui à adolescência, o pescoço alto e frágil, o queixo fino, toda a linha instável do corpo, insegura, inacabada. Ricardo Reis sai da sala de jantar, aproxima-se da porta dos monogramas, aí tem de trocar vénias com o homem gordo que também ia saindo, Vossa excelência primeiro, Ora essa, por quem é, saiu o gordo, Muito obrigado a vossa excelência, notável maneira esta de dizer, Por quem e, se tomássemos todas as palavras à letra, passaria primeiro Ricardo Reis, porque é inúmeros, segundo o seu próprio modo de entender-se. O gerente Salvador estende já a chave do duzentos e um, faz menção de a entregar solícito, porém retrai subtilmente o gesto, talvez o hóspede queira partir à descoberta da Lisboa nocturna e dos seus prazeres secretos, depois de tantos anos no Brasil e tantos dias de travessia oceânica, ainda que a noite invernosa mais faça apetecer o sossego da sala de estar, aqui ao lado, com as suas profundas e altas poltronas de couro, o seu lustre central, precioso de pingentes, o grande espelho em que cabe toda a sala, que nele se duplica, em uma outra dimensão que não é o simples reflexo das comuns e sabidas dimensões que com ele se confrontam, largura, comprimento, altura, porque não estão lá uma por uma, identificáveis, mas sim fundidas numa dimensão única, como fantasma inapreensível de um plano simultaneamente remoto e próximo, se em tal explicação não há uma contradição que a consciência só por preguiça desdenha, aqui se está contemplando Ricardo Reis, no fundo do espelho, um dos inúmeros que é, mas todos fatigados, Vou para cima, estou cansado da viagem, foram duas semanas de mau tempo, se houvesse por aí uns jornais de hoje, questão de me pôr em dia com a pátria enquanto não adormeço, Aqui os tem, senhor doutor, e neste momento apareceram a rapariga da mão paralisada e o pai, passaram para a sala de estar, ele à frente, ela atrás, distantes um passo, a chave já estava na mão de Ricardo Reis, e os jornais cor de cinza, baços, uma rajada fez bater a porta que dá para a rua, lá no fundo da escada, o besouro zumbiu, não é ninguém, apenas o temporal que recrudesce, desta noite não virá mais nada que se aproveite, chuva, vendaval em terra e no mar, solidão.
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   Depois duma noite de arrebatada invernia, de temporal desfeito, palavras estas que já nasceram emparelhadas, as primeiras não tanto, e umas e outras tão pertinentes à circunstância que forram o trabalho de pensar em novas criações, bem poderia a manhã ter despontado resplandecente de sol, com muito azul no céu e joviais revoadas de pombos. Não estiveram para aí virados os meteoros, as gaivotas continuam a sobrevoar a cidade, o rio não é de fiar, os pombos mal se atrevem. Chove, suportavelmente para quem desceu à rua de gabardina e guarda-chuva, e o vento, em comparação com os excessos da madrugada, é uma carícia na face. Ricardo Reis saiu cedo do hotel, foi ao Banco Comercial cambiar algum do seu dinheiro inglês pelos escudos da pátria, pagaram-lhe por cada libra cento e dez mil réis, pena não serem elas de ouro que se trocariam quase em dobro, ainda assim não tem grandes razões de queixa este torna-viagem que sai do banco com cinco contos no bolso, é uma fortuna em Portugal. Da Rua do Comércio, onde está, ao Terreiro do Paço distam poucos metros, apeteceria escrever, É um passo, se não fosse a ambiguidade da homofonia, mas Ricardo Reis não se aventurará à travessia da praça, fica a olhar de longe, sob o resguardo das arcadas, o rio pardo e encrespado, a maré está cheia, quando as ondas se levantam ao largo parece que vêm alagar o terreiro, submergi-lo, mas é ilusão de óptica, desfazem-se contra a muralha, quebra-se-lhes a força nos degraus inclinados do cais. Lembra-se de ali se ter sentado em outros tempos, tão distantes que pode duvidar se os viveu ele mesmo, Ou alguém por mim, talvez com igual rosto e nome, mas outro. Sente frios os pés, húmidos, sente também uma sombra de infelicidade passar-lhe sobre o corpo, não sobre a alma, repito, não sobre a alma, esta impressão é exterior, seria capaz de tocar-lhe com as mãos se não estivessem ambas agarrando o cabo do guarda-chuva, escusadamente aberto. Assim se alheia do mundo um homem, assim se oferece ao desfrute de quem passa e diz, Ó senhor, olhe que aí debaixo não lhe chove, mas este riso é franco, sem maldade, e Ricardo Reis sorri de se ter distraído, sem saber porquê murmura os dois versos de João de Deus, célebres na infância das escolas, Debaixo daquela arcada passava-se a noite bem. Veio por estar tão perto e para verificar, de caminho, se a antiga memória da praça, nítida como uma gravura a buril, ou reconstruída pela imaginação para assim o parecer hoje, tinha correspondência próxima na realidade material de um quadrilátero rodeado de edifícios por três lados, com uma estátua equestre e real ao meio, o arco do triunfo, que donde está não alcança a ver, e afinal tudo é difuso, brumosa a arquitectura, as linhas apagadas, será do tempo que faz, será do tempo que é, será dos seus olhos já gastos, só os olhos da lembrança podem ser agudos como os do gavião. Aproximam-se as onze horas, há grande movimento sob as arcadas, mas dizer movimento não quer dizer rapidez, esta dignidade tem pouca pressa, os homens, todos de chapéu mole, pingando guarda-chuvas, raríssimas as mulheres, e vão entrando nas repartições, é a hora em que começam a trabalhar os funcionários públicos.
Afasta-se Ricardo Reis em direcção à Rua do Crucifixo, atura a insistência de um cauteleiro que lhe quer vender um décimo para a próxima extracção da lotaria, É o mil trezentos e quarenta e nove, amanhã é que anda a roda, não foi este o número nem a roda anda amanhã, mas assim soa o canto do áugure, profeta matriculado com chapa no boné, Compre, senhor, olhe que se não compra pode-se arrepender, olhe que é palpite, e há uma fatal ameaça na imposição. Entra na Rua Garrett, sobe ao Chiado, estão quatro moços de fretes encostados ao plinto da estátua, nem ligam à pouca chuva, é a ilha dos galegos, e adiante deixou de chover mesmo, chovia, já não chove, há uma claridade branca por trás de Luís de Camões, um nimbo, e veja-se o que as palavras são, esta tanto quer dizer chuva, como nuvem, como círculo luminoso, e não sendo o vate Deus ou santo, tendo a chuva parado, foram só as nuvens que se adelgaçaram ao passar, não imaginasse-mos milagres de Ourique ou de Fátima, nem sequer esse tão simples de mostrar-se azul o céu. 
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    Vai Ricardo Reis aos jornais, vai aonde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rasto do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que do dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia, Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia em moldes originais mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos, e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis, pronto, já cá faltava o erro, a desatenção, o escrever por ouvir dizer, quando muito bem sabemos, nós, que Ricardo Reis é sim este homem que está lendo o jornal com os seus próprios olhos abertos e vivos, médico, de quarenta e oito anos de idade, mais um que a idade de Fernando Pessoa quando lhe fecharam os olhos, esses sim, mortos, não deviam ser necessárias outras provas ou certificados de que não se trata da mesma pessoa, e se ainda aí houver quem duvide, esse vá ao Hotel Bragança e fale com o senhor Salvador, que é o gerente, pergunte se não está lá hospedado um senhor chamado Ricardo Reis, médico, que veio do Brasil, ele dirá que sim, O senhor doutor não vem almoçar, mas disse que jantaria, se quiser deixar algum recado, eu pessoalmente me encarregarei de lho transmitir, quem ousará duvidar agora da palavra de um gerente de hotel, excelente fisionomista e definidor de identidades. Mas, para que não fiquemos somente com a palavra de alguém: que conhecemos tão pouco, aqui está estoutro jornal que pôs a notícia na página certa, a da necrologia, e extensamente identifica o falecida, Realizou-se ontem o funeral do senhor doutor Fernando António Nogueira Pessoa, solteiro, de quarenta e sete anos de idade, quarenta e sete, notem bem, natural de Lisboa, formado em Letras pela Universidade de Inglaterra, escritor e poeta muito conhecido no meio literário, sobre o ataúde foram depostos ramos de flores naturais, o pior é delas, coitadas, mais depressa murcham. Enquanto espera o eléctrico que o há-de levar aos Prazeres, o doutor Ricardo Reis lê a oração fúnebre proferida à beira da campa, lê-a perto do lugar onde foi enforcado, sabemo-lo nós, vai para duzentos e vinte e três anos, reinava ao tempo o senhor D. João V, que não teve lugar na Mensagem, estávamos dizendo, onde foi enforcado um genovês vendilhão que por causa duma peça de droguete matou um português dos nossos, dando-lhe com uma faca pela garganta, e depois fez o mesmo à ama do morto, que morta ali ficou do golpe, e a um criado deu duas facadas não fatais, e a outro vazou-lhe um olho como a coelho, e se mais não aviou foi porque enfim o prenderam, aqui vindo a ser sentenciado por ser perto a casa do assassinado, com grande concorrência de povo, não se lhe pode comparar esta manhã de mil novecentos e trinta e cinco, mês de Dezembro, dia trinta, estando carregado o céu, só quem o não pôde evitar anda na rua, embora não chova neste preciso instante em que Ricardo Reis, encostado a um candeeiro no alto da Calçada do Combro, lê a oração fúnebre, não do genovês, que a não teve, salvo se lhe fizeram as vezes os doestos da populaça, mas de Fernando Pessoa, poeta, de crimes de morte inocente, Duas palavras sobre o seu trânsito mortal, para ele chegam duas palavras, ou nenhuma, preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito, com ele está bem o que está perto de Deus, mas também não deviam, nem podiam os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir as linhas definitivas da Eternidade, sem enunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida, não podiam os seus companheiros de Orfeu, antes os seus irmãos, do mesmo sangue ideal da sua beleza, não podiam, repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado sobre a sua morte gentil o lírio branco do seu silêncio e da sua dor, lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana, somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e seu poder criador, a esses deu-lhes o destino uma estranha formosura, que não morre, o resto é com o génio de Fernando Pessoa. Vá lá, vá lá, felizmente que ainda se encontram excepções nas regularidades da vida, desde o Hamlet que nós andávamos a dizer, O resto é silêncio, afinal, do resto quem se encarrega é o génio, e se este, também outro qualquer. O eléctrico já chegou e partiu, Ricardo Reis vai sentado nele, sozinho no banco, pagou o seu bilhete de setenta e cinco centavos, com o tempo aprenderá a dizer, Um de sete e meio, e volta a ler a funérea despedida, não pode convencer-se de que seja Fernando Pessoa o destinatário dela, em verdade morto, se considerarmos a unanimidade das notícias, mas por causa das anfibologias gramaticais e léxicas que ele abominaria, tão mal o conheciam para assim lhe falarem ou falarem dele, aproveitaram-se da morte, estava de pés e mãos atados, atentemos naquele lírio branco e desfolhado, como rapariga morta de febre tifóide, naquele adjectivo gentil, meu Deus, que lembrança tão bacoca, com perdão da vulgar palavra, quando tinha o orador ali mesmo a morte substantiva que todo o mais deveria dispensar, em especial o resto, tudo tão pouco, e como gentil significa nobre, cavalheiro, garboso, elegante, agradável, cortês, é o que diz o dicionário, lugar de dizer, então a morte será dita nobre, ou cavalheira, ou garbosa, ou elegante, ou agradável, ou cortês, qual destas terá sido a dele, se no leito cristão do Hospital de S. Luís lhe foi permitido escolher, praza aos deuses que tenha sido agradável, com uma morte que o fosse, só se perderia a vida. Quando Ricardo Reis chegou ao cemitério, estava a sineta do portão tocando, badalava aos ares um som de bronze rachado, como de quinta rústica, na dormência da sesta. Já a esconder-se, uma carreta levada a braço bambeava lutuosas sanefas, um grupo de gente escura seguia a carroça mortuária, vultos tapados de xales pretos e fatos masculinos de casamento, alguns lívidos crisântemos nos braços, outros ramos deles enfeitando os varandins superiores do esquife, nem mesmo as flores têm um destino igual. Sumiu-se a carreta lá para as profundas, e Ricardo Reis foi à administração; ao registo dos defuntos, perguntar onde estava sepultado Fernando António Nogueira Pessoa, falecido no dia trinta do mês passado, enterrado no dia dois do que corre, recolhido neste cemitério até ao fim dos tempos, quando Deus mandar acordar os poetas da sua provisória morte.
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    Ricardo Reis agradeceu as explicações, tomou os ventos que do largo vinham sobre mar e rio, não ouviu que fossem eles gemebundos como a cemitério conviria, apenas estão os ares cinzentos, húmidos os mármores e liozes da recente chuva, e mais verde-negros os ciprestes, vai descendo por esta álea como lhe disseram, à procura do quatro mil trezentos e setenta e um, roda que amanhã não anda, andou já, e não andará mais, saiu-lhe o destino, não a sorte. A rua desce suavemente, como em passeio, ao menos não foram esforçados os últimos ossos, a derradeira caminhada, o final acompanhamento, que a Fernando Pessoa ninguém tornará a acompanhar, se em vida realmente o fizeram aqueles que em morto o seguiram. É este o cotovelo que devemos virar. Perguntamo-nos que viemos cá fazer, que lágrima foi que guardámos para verter aqui, e porquê, se as não chorámos em tempo próprio, talvez por ter sido então menor a dor que o espanto, só depois é que ela veio, surda, como se todo o corpo fosse um único músculo pisado por dentro, sem nódoa negra que de nós mostrasse o lugar do luto. De um lado e do outro os jazigos têm as portas fechadas, tapadas as vidraças por cortininhas de renda, alva bretanha como de lençóis, finíssimas flores bordadas entre dois prantos, ou de pesado croché tecido por agulhas como espadas nuas, ou richelio, ou ajur, modos de dizer afrancesados, pronunciados sabe Deus como, tal qual as crianças do Highland Brigade que a estas horas vai longe, navegando para o norte, em mares onde o sal das lágrimas lusíadas é só de pescadores, entre as vagas que os matam, ou de gente sua, gritando na praia, as linhas fê-las a companhia coats and clark, marca âncora, para da história trágico-marítima não sairmos. Ricardo Reis andou já metade do caminho, vai olhando à direita, eterna saudade, piedosa lembrança, aqui jaz, à memória de, iguais seriam do lado esquerdo se para lá olhássemos, anjos de asas derrubadas, lacrimosas figuras, entrelaçados dedos, pregas compostas, panos apanhados, colunas partidas, se as farão já assim os canteiros, ou as entregarão inteiras para que as quebrem depois os parentes do defunto em sinal de pesar, como quem solenemente, à morte do chefe, os escudos parte, e caveiras no sopé das cruzes, a evidência da morte é o véu com que a morte se disfarça. Passou Ricardo Reis adiante do jazigo que procurava, nenhuma voz o chamou, Pst, é aqui, e ainda há quem insista em afirmar que os mortos falam, ai deles se não tiverem uma matrícula, um nome na pedra, um número como as portas dos vivos, só para que saibamos encontrá-los valeu o trabalho de nos ensinarem a ler, imagine-se um analfabeto dos muitos que temos, era preciso trazê-lo, dizer-lhe com a nossa voz, e aqui, porventura nos olharia desconfiado, se estaríamos a enganá-lo, ou por erro nosso, ou malícia, vai orar a Montecchio sendo Capuletto, a Mendes sendo Gonçalves. São títulos de propriedade e ocupação, jazigo de D. Dionísia de Seabra Pessoa, inscritos na frontaria, sob os beirais avançados desta guarita onde a sentinela, romântica sugestão, está dormindo, em baixo, à altura do gonzo inferior da porta, outro nome, não mais, Fernando Pessoa, com datas de nascimento e morte, e o vulto dourado duma urna dizendo, Estou aqui, e em voz alta Ricardo Reis repete, não sabendo que ouviu, Está aqui, é então que recomeça a chover. Veio de tão longe, do Rio de Janeiro, navegou noites e dias sobre as ondas do mar, tão próxima e distante lhe parece hoje a viagem, agora que há-de fazer, sozinho nesta rua, entre funerais habitações, de guarda-chuva aberto, horas de almoçar, ao longe ouve-se o som choco da sineta, esperava sentir, quando aqui chegasse, quando tocasse estes ferros, um abalo na alma profunda, uma dilaceração, um terramoto interior, como grandes cidades caindo silenciosamente porque lá não estamos, pórticos e torres brancas desabando, e afinal, só, e de leve, um ardor nos olhos que vindo já passou, nem tempo deu de pensar nisso e comover-se de o pensar. Não tem mais que fazer neste sítio, o que fez nada é, dentro do jazigo está uma velha tresloucada que não pode ser deixada à solta, está também, por ela guardado, o corpo apodrecido de um fazedor de versos que deixou a sua parte de loucura no mundo, é essa a grande diferença que há entre os poetas e os doidos, o destino da loucura que os tomou. Sentiu medo ao pensar na avó Dionísia, lá dentro, no aflito neto Fernando, ela de olhos arregalados vigiando, ele desviando os seus, à procura duma frincha, dum sopro de vento, duma pequenina luz, e o mal-estar transformou se em náusea como se o arrebatasse e sufocasse uma grande vaga marinha, ele que em catorze dias de viagem não enjoara. Então pensou, Isto deve ser de estar com o estômago vazio, e assim seria, que em toda a manhã não tinha comido. Caiu uma bátega forte, em boa altura veio, agora já Ricardo Reis terá uma razão para responder, se for perguntado, Não, não me demorei lá, é que chovia tanto. Enquanto ia subindo a rua, devagar, sentiu dissipar-se a náusea, apenas lhe ficava uma vaga dor de cabeça, talvez um vago na cabeça, como uma falta, um pedaço de cérebro a menos, a parte que me coube. A porta da administração do cemitério estava o seu informador, era manifesto, pelo luzidio dos beiços, que acabara de almoçar, onde, aqui mesmo, estendido um guardanapo sobre a secretária, a comida que trouxera de casa, ainda morna de vir embrulhada em jornais, acaso aquecida num bico de gás, lá nos fundos do arquivo, por três vezes interrompendo a mastigação para registar entradas, afinal devo ter-me demorado mais tempo do que julgava, Então achou o jazigo que queria, oi Achei, respondeu Ricardo Reis, e saindo o portão repetiu, Achei, estava lá.  
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    É para o hotel que Ricardo Reis vai encaminhando os passos. Agora mesmo se lembrou do quarto onde dormiu a sua primeira noite de filho pródigo, sob um paterno tecto, lembrou-se dele como da sua própria casa, mas não a do Rio de Janeiro, não nenhuma das outras em que habitou, no Porto, onde sabemos que nasceu, aqui nesta cidade de Lisboa, onde morava antes de se embarcar para o exílio brasileiro, nenhuma dessas, e contudo tinham sido casas verdadeiras, estranho sinal, e de quê, estar um homem lembrando-se do seu quarto de hotel como de casa que sua fosse, e sentir esta inquietação, este desassossego, há tanto tempo por fora, desde manhã cedo, vou já, vou já. Dominou a tentação de chamar um táxi, deixou seguir um carro eléctrico que o deixaria quase à porta, conseguiu, enfim, reprimir a ansiedade absurda, obrigar-se a ser apenas uma pessoa qualquer que regressa a casa, mesmo hotel sendo, sem pressas, e também sem escusadas demoras, embora não tenha ninguém à sua espera. Provavelmente verá a rapariga da mão paralisada, logo à noite, na sala de jantar, é uma probabilidade, como também o são o homem gordo, o magro de luto, as crianças pálidas e seus pletóricos pais, quem sabe que outros hóspedes, gentes misteriosas que chegaram do desconhecido e da bruma, e pensando neles sentiu um bom calor no coração, um íntimo conforto, amai-vos uns aos outros, assim fora dito um dia, e era tempo de começar.
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    Quando Ricardo Reis entrou no quarto e viu como tudo estava perfeitamente arrumado, a colcha da cama esticada, o lavatório rebrilhante, o espelho sem uma sombra, salvo o picado da antiguidade, suspirou de satisfação. Descalçou-se, mudou de roupa, enfiou uns sapatos leves, de interior, entreabriu uma das janelas, gestos de quem regressou a casa e gosta de estar nela, depois sentou-se na poltrona, a descansar. Foi como se tivesse caído em si, isto ê, para dentro de si caindo, uma queda rápida, violenta, E agora, perguntou, E agora, Ricardo, ou lá quem és, diriam outros. Num relance, percebera que o verdadeiro termo da sua viagem era este preciso instante que estava vivendo, que o tempo decorrido desde que pusera o pé no cais de Alcântara se gastara, por assim dizer, em manobras de atracação e fundeamento, o tentear da maré, o lançar dos cabos, que isso foram a procura do hotel, a leitura dos primeiros jornais, e dos outros, a ida ao cemitério, o almoço na Baixa, a descida da Rua dos Douradores, e aquela repentina saudade do quarto, o impulso de afecto indiscriminado, geral e universal, as boas vindas de Salvador e Pimenta, a colcha irrepreensível, enfim, a janela aberta de par em par, empurrou-a e vento e assim está, ondulam como asas os cortinados leves, E agora. A chuva recomeçou a cair, faz sobre os telhados um rumor como de areia peneirada, entorpecente, hipnótico, porventura no seu grande dilúvio terá Deus misericordioso desta maneira adormecido os homens para que lhes fosse suave a morte, a água entrando maciamente pelas narinas e pela boca, inundando sem sufocação os pulmões, regatinhos que vão enchendo os alvéolos, um após outro, todo O oco do corpo, quarenta dias e quarenta noites de sono e de chuva, os corpos descendo para o fundo, devagar, repletos de água, finalmente mais pesados do que ela, foi assim que estas coisas se passaram, também Ofélia se deixa ir na corrente, cantando, mas essa terá de morrer antes que se acabe o quarto acto da tragédia, tem cada um o seu modo pessoal de dormir e morrer, julgamos nós, mas é o dilúvio que continua, chove sobre nós o tempo, o tempo nos afoga. No chão encerado juntaram-se e alastraram as gotas que entravam pela janela aberta, as que salpicavam do peitoril, há hóspedes descuidados para quem o trabalho humilde é desprezível, julgam talvez eles que as abelhas, além de fabricarem a cera, a virão espalhar nas tábuas e depois puxar-lhes o brilho, ora isto não é trabalho de insectos, se as criadas não existissem, obreiras também elas, estes resplandecentes soalhos estariam baços, pegajosos, não tardaria aí o gerente armado de repreensão e castigo, porque, gerente sendo, é esta a sua obra, e neste hotel fomos nós colocados para honrar e glorificar o senhor dele, ou seu delegado, Salvador, como sabemos e já deu mostras. Ricardo Reis correu a fechar a janela, com os jornais empapou e espremeu a água do chão, a maior, e, faltando-lhe outros meios para emendar por inteiro o pequeno atentado, tocou a campainha. Era a primeira vez, pensou, como quem a si mesmo pede desculpa. Ouviu passos no corredor, ressoaram discretamente uns nós de dedos na porta, Entre, palavra que foi rogo, não ordem, e quando a criada abriu, mal a olhando, disse, A janela estava aberta, não dei por que a chuva entrasse, está o chão todo molhado, e calou-se repentinamente ao notar que formara, de enfiada, três versos de sete sílabas, redondilha maior, ele, Ricardo Reis, autor de odes ditas sáficas ou alcaicas, afinal saiu-nos poeta popular, por pouco não rematou a quadra, quebrando-lhe o pé por necessidade da métrica, e a gramática, assim, Agradecia limpasse, porém o entendeu sem mais poesia a criada, que saiu e voltou com esfregão e balde, e posta de joelhos, serpeando o corpo ao movimento dos braços, restituiu quanto possível a secura que às madeiras enceradas convém, amanhã lhes deitará uma pouca de cera, Deseja mais alguma coisa, senhor doutor, Não, muito obrigado, e ambos se olharam de frente, a chuva batia fortíssima nas vidraças, acelerara-se o ritmo, agora rufava como um tambor, em sobressalto os adormecidos acordavam, Como se chama, e ela respondeu, Lídia, senhor doutor, e acrescentou, As ordens do senhor doutor, poderia ter dito doutra maneira, por exemplo, é bem mais alto, Eis-me aqui, a este extremo autorizada pela recomendação do gerente, Olha lá, ó Lídia, dá tu atenção ao hóspede do duzentos e um, ao doutor Reis, e ela lha estava dando, mas ele não respondeu, apenas pareceu que repetira o nome, Lídia, num sussurro, quem sabe se para não o esquecer quando precisasse de voltar a chamá-la, há pessoas assim, repetem as palavras que ouvem, as pessoas, em verdade, são papagaios umas das outras, nem há outro modo de aprendizagem, acaso esta reflexão veio fora de propósito porque não a fez Lídia, que é o outro interlocutor, deixemo-la sair então, se já tem nome, levar dali o balde e o esfregão, vejamos como ficou Ricardo Reis a sorrir ironicamente, é um jeito de lábios que não engana, quando quem inventou a ironia inventou a ironia, teve também de inventar o sorriso que lhe declarasse a intenção, alcançamento muito mais trabalhoso, Lídia, diz, e sorri. Sorrindo vai buscar à gaveta os seus poemas, as suas odes sáficas, lê alguns versos apanhados na passar das folhas, E assim, Lídia, à lareira, como estando, Tal seja, Lídia, a quadro, Não desejemos, Lídia, nesta hora, Quando, Lídia, vier o nosso outono, Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira-rio, Lídia, a vida mais vil antes que a morte, já não roto vestígio de ironia no sorriso, se de sorriso ainda justificam o nome dois lábios abertos sobre os dentes, quando por dentro da pele se alterou o jogo dos músculos, ricto agora ou doloroso esgar se diria em estilo chumbado. Também isto não durará. Como a imagem de si mesmo reflectida num trémulo espelho de água, o rosto de Ricardo Reis, suspenso sobre a página, recompõe as linhas conhecidas, daqui a pouco poderá reconhecer-se, Sou eu, sem nenhuma ironia, sem nenhum desgosto, contente de não sentir sequer contentamento, menos ser o que é do que estar onde está, assim faz quem mais não deseja ou sabe que mais não pode ter, por isso só quer e que já era seu, enfim, tudo. A penumbra do quarto tornou-se espessa, alguma nuvem negra estará a passar no céu, um escuríssimo nimbo como seriam os que foram convocados para o dilúvio, os móveis caem em súbito sono. Ricardo Reis faz um gesto com as mãos, tacteia o ar cinzento, depois, mal distinguindo as palavras que vai traçando no papel, escreve, Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir, e tendo escrito não soube que mais dizer, há ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um certo ponto, apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar como estão os deuses, calados e quietos, assistindo apenas. Vai sentar-se no sofá, recosta-se, fecha os olhos, sente que poderá dormir, nem outra coisa quer, e é já adormecidamente que se levanta, abre o guarda-fato, retira um cobertor com que se tapa, agora sim, dorme, sonha que está uma manhã de sol e vai passeando pela Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, à ligeira por ser muito o calor, começa a ouvir tiros ao longe, rebentamentos de bombas, explosões, mas não acorda, não é a primeira vez que sonha este sonho, nem sequer ouve que alguém lhe está batendo à porta e que uma voz, de mulher persuasiva, pergunta, O senhor doutor chamou. Digamos que foi por ter dormido pouco durante a noite que Ricardo Reis adormeceu tão profundamente, digamos que são falácias de mentirosa profundeza espiritual aquelas permutáveis fascinação e tentação, de imobilidade e mudez consoante, digamos que não é isto nenhuma história de deuses e que a Ricardo Reis familiarmente poderíamos ter dito, antes que adormecesse como vulgar humano, O teu mal é sono. Porém, está uma folha de papel em cima da mesa e nela foi escrito, Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir, existe pois este papel, as palavras existem duas vezes, cada uma por si mesma e em terem-se encontrado neste seguimento, podem ser lidas e exprimem um sentido, tanto faz, para o caso, que haja ou não haja deuses, que tenha ou não tenha adormecido quem as escreveu, porventura não são as coisas tão simples como estávamos primeiramente inclinados a mostrá-las. Quando Ricardo Reis acorda, é noite no quarto. O último luzeiro que ainda vem de fora quebranta-se nas vidraças embaciadas, no tamis dos cortinados, uma das janelas tem o reposteiro corrido, aí fechou-se a escuridão. O hotel está em grande silêncio, é o palácio da Bela Adormecida, donde já a Bela se retirou ou onde nunca esteve, e todos dormindo, Salvador, Pimenta, os criados galegos, o maitre, os hóspedes, o pajem renascentista, parado o relógio do patamar, de repente soou o distante besouro da entrada, deve ser o príncipe que vem a beijar a Bela, chega tarde, coitado, tão alegre que eu vinha e tão triste que eu vou, a senhora viscondessa prometeu-me, mas faltou. É uma cantilena infantil, vinda da memória subterrânea, movem-se umas crianças de névoa ao fundo de um jardim invernoso, e cantam com as suas vozes agudas, porém tristes, avançam e recuam em passos solenes, assim ensaiando a pavana para os infantes defuntos que não tardarão a ser, crescendo. Ricardo Reis afasta o cobertor, repreende-se por se ter deixado dormir vestido, não é seu hábito condescender com tais negligências, sempre seguiu as suas regras de comportamento, a sua disciplina, nem o trópico de Capricórnio, tão emoliente, lhe embotou, em dezasseis anos, o gume rigoroso dos modos e das odes, ao ponto de se poder afirmar que sempre procura estar como se sempre o estivessem observando os deuses. Levanta-se da poltrona, vai acender a luz, e, como se manhã fosse e de um sono nocturno tivesse acordado, olha-se no espelho, apalpa a cara, talvez devesse barbear-se para o jantar, ao menos mude de roupa, não vai apresentar-se assim na sala, amarrotado como está.
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Embora a hora do jantar ainda esteja longe, vai descer. Mas antes de sair releu o que escrevera, sem tocar no papel, diríamos que impaciente, como se estivesse a tomar conhecimento de um recado deixado por alguém de quem não gostasse, ou o irritasse mais do que é normal e desculpável. Este Ricardo Reis não é o poeta, é apenas um hóspede de hotel que, ao sair do quarto, encontra uma folha de papel com verso e meio escritos, quem me terá deixado isto ou a outra, que maçada ser preciso acabá-lo, é como uma fatalidade, E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que se mantém constante, nada mais. O gerente Salvador estava no seu posto, fixo, arvorando, perene, o sorriso. Ricardo Reis cumprimentou, seguiu adiante. Salvador foi atrás dele, quis saber se o senhor doutor tomaria alguma bebida antes do jantar, um aperitivo, Não, obrigado, também este hábito não ganhou Ricardo Reis, pode ser que com o passar do tempo lhe venha, primeiro o gosto, depois a necessidade, não agora. Salvador demorou-se um minuto entre portas, a ver se o hóspede mudava de opinião ou exprimia outro desejo, mas Ricardo Reis já tinha aberto um dos jornais, passara todo aquele dia em ignorância do que acontecera no mundo, não que por inclinação fosse leitor assíduo, pelo contrário, fatigavam-no as páginas grandes e as prosas derramadas, mas aqui, não havendo mais que fazer, e para escapar às solicitudes de Salvador, o jornal, por falar do mundo geral, servia de barreira contra este outro mundo próximo e sitiante, podiam as notícias daquele de além ser lidas como remotas e inconsequentes mensagens, em cuja eficácia não há muitos motivos para acreditar porque nem sequer temos a certeza de que cheguem ao seu destino, Demissão do governo espanhol, aprovada a dissolução das cortes, uma, O Negus num telegrama à Sociedade das Nações diz que os italianos empregam gases asfixiantes, outra, são assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde de mais para emendar os erros, os perigos e as faltas, bom jornal seria aquele que no dia um de Janeiro de mil novecentos e catorze tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia vinte e quatro de Julho, disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça, quem sabe se não iríamos a tempo, e melhor seria ainda se aparecesse publicada a lista dos que iriam morrer, milhões de homens e mulheres a ler no jornal da manhã, ao café com leite, a notícia da sua própria morte, destino marcado e a cumprir, dia, hora e lugar, o nome por inteiro, que fariam eles sabendo que os iam matar, que faria Fernando Pessoa se pudesse ler, dois meses antes, O autor da Mensagem morrerá no dia trinta de Novembro próximo, de cólica hepática, talvez fosse ao médico e deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber o dobro, para poder morrer antes. Ricardo Reis baixa o jornal, olha-se no espelho, superfície duas vezes enganadora porque reproduz um espaço profundo e o nega mostrando-o como mera projecção, onde verdadeiramente nada acontece, só o fantasma exterior e mudo das pessoas e das coisas, árvore que para o lago se inclina, rosto que nele se procura, sem que as imagens de árvore e rosto o perturbem, o alterem, lhe toquem sequer. O espelho, este e todos, porque sempre devolve uma aparência, está protegido contra o homem, diante dele não somos mais que estarmos, ou termos estado, como alguém que antes de partir para a guerra de mil novecentos e catorze se admirou no uniforme que vestia, mais do que a si mesmo se olhou, sem saber que neste espelho não tornará a olhar-se, também é isto a vaidade, o que não tem duração. Assim é o espelho, suporta, mas, podendo ser, rejeita. Ricardo Reis desviou os olhos, muda de lugar, vai, rejeitador ele, ou rejeitado, virar-lhe as costas. Porventura rejeitador porque espelho também. Deu oito horas o relógio do patamar, e mal o último eco se tinha calado, ressoou debilmente um gongo invisível, só aqui perto se pode ouvi-lo, de certeza não dão por ele os hóspedes dos andares altos, porém há que contar com o peso da tradição, não vai ser só fingirem-se entrançados de vime em garrafões quando já o vime não for usado. Ricardo Reis dobra o jornal, sobe ao quarto a lavar as mãos, a corrigir o aspecto, volta logo, senta-se à mesa onde da primeira vez comeu, e espera. Quem o visse, quem lhe seguisse os passos, assim expedito, cuidaria haver ali muito apetite ou ser a pressa muita, que teria almoçado este cedo e mal, ou comprou bilhete para o teatro. Ora, nós sabemos que almoçou tarde, de ter comido pouco não o ouvimos queixar-se, e que não vai ao teatro nem ao cinema irá, e com um tempo assim, de mais a piorar, só um tolo se lembraria, ou um excêntrico, de ir passear as ruas da cidade. Ricardo Reis é somente compositor de odes, não um excêntrico, ainda menos um tolo, menos ainda desta aldeia, Então que pressa foi esta que me deu, se agora só é que vêm chegando as pessoas para o jantar, o homem magro de luto, o gordo pacifico e de boa digestão, estes outros que não vi ontem à noite, faltam as crianças mudas e os pais delas, estariam de passagem, a partir de amanhã não virei sentar-me antes das oito e meia, chegarei muito a tempo, aqui estou eu, ridículo, feito provinciano que desceu à cidade e fica pela primeira vez em hotel. Comeu devagar a sopa, mexendo muito a colher, depois dispersou o peixe no prato e debicou, em verdade não tinha fome, e quando o criado lhe servia o segundo prato viu entrarem três homens que o maitre guiou até à mesa onde, na véspera, haviam jantado a rapariga da mão paralisada e o pai, Então não está cá, foram-se embora, pensou, Ou jantam fora, contrapôs, só então admitiu o que já sabia mas fingira não saber, e tanto que estivera registando a entrada de todos os hóspedes, em meio alheamento, em dissimulação consigo mesmo, isto é, que descera cedo para ver a rapariga, Porquê, até esta pergunta era fingimento, em primeiro lugar porque certas perguntas são feitas apenas para tornar mais explícita a ausência de resposta, em segundo lugar por ser simultaneamente verdadeira e falsa essa outra resposta possível e oblíqua de haver motivo bastante de interesse, sem mais profundas ou laterais razões, numa rapariga que tem a mão esquerda paralisada e a afaga como a um animalzinho de estimação, mesmo não lhe servindo para nada, ou por isso mesmo. Abreviou o jantar, pediu que lhe servissem o café, E um conhaque, na sala de estar, maneira de entreter o tempo enquanto não pudesse, agora sim, conscientemente decidido, perguntar ao gerente Salvador que pessoas eram aquelas, o pai e a filha, sabe que me parece já os ter visto em outro lugar, talvez no Rio de Janeiro, em Portugal não, claro está, porque então a rapariga seria uma menina de poucos anos, tece e enreda Ricardo Reis esta malha de aproximações, tanta investigação para averiguação tão pouca. Por enquanto Salvador atende outros hóspedes, um que parte amanhã muito cedo e quer a conta, outro que se queixa de não poder dormir com as pancadas duma persiana quando lhe dá o vento, a todos atende Salvador com os seus modos delicados, o dente sujo, o bigode fofo.
 [...]
   Meia hora depois já o afável Salvador pode informar, Não, deve tê-los confundido com outras pessoas, que eu saiba nunca estiveram no Brasil, vêm aqui há três anos, temos conversado, claro, era natural que me tivessem falado duma viagem dessas, Então foi confusão minha, mas diz o senhor Salvador que vêm aqui há três anos, Pois vêm, são de Coimbra, vivem lá, o pai é o doutor Sampaio, notário, E ela, Ela tem um nome esquisito, chama-se Marcenda, imagine, mas são de muito boas famílias, a mãe é que já morreu, Que tem ela na mão, Acho que o braço todo está paralisado, por causa disso é que vêm estar todos os meses três dias aqui no hotel, para ela ser observada pelo médico, Ah, todos os meses três dias, Sim, todos os meses três dias, o doutor Sampaio avisa sempre com antecedência para eu ter dois quartos livres, sempre os mesmos, E nestes anos tem havido melhoras, Se quer que lhe fale francamente, senhor doutor, acho que não, Que pena, uma rapariga tão nova, É verdade, o senhor doutor é que podia dar-lhes uma opinião da próxima vez, se ainda cá estiver, É possível que esteja, sim, mas estes casos não são da minha especialidade, eu sou médico de clínica geral, interessei me depois por doenças tropicais, nada que possa ser útil em situações destas, Paciência, é bem verdade que o dinheiro não dá felicidade, o pai com tanto de seu, e a filha assim, não e há quem a veja rir, É Marcenda o nome, É sim, senhor doutor, Estranha palavra, nunca tinha ouvido, Nem eu, Até amanhã, senhor Salvador, Senhor doutor, até amanhã. Ao entrar no quarto, Ricardo Reis vê a cama aberta, colcha e lençol afastados e dobrados em ângulo nítido, porém discretamente, sem aquele desmanchado impudor da roupa que se lança para trás, aqui há apenas uma sugestão, em querendo deitar-se, este é o lugar. Não será tão cedo. Primeiro irá ler o verso e meio que deixou escrito no papel, olhar para ele com severidade, procurar a porta que esta chave, se o é, possa abrir, imaginar que a encontrou e dar com outras portas por trás daquela, fechadas e sem chave, enfim, tanto persistiu que achou alguma coisa, ou por cansaço, seu ou de alguém, quem, lhe foi subitamente abandonada, desta maneira se concluindo o poema, Não quieto nem inquieto meu ser calmo quero erguer alto acima de onde os homens têm prazer ou dores, o mais que pelo meio ficou obedecia à mesma conformidade, quase se dispensava, A dita é um jugo e o ser feliz oprime porque é um certo estado. Depois foi-se deitar e adormeceu logo.
[...]
O pequeno-almoço do senhor doutor, foi ensinada a dizer assim, e, embora mulher nascida do povo, tão inteligente é que não esqueceu até hoje. Se esta Lídia não fosse criada, e competente, poderia ser, pela amostra, não menos excelente funâmbula, malabarista ou prestidigitadora, génio adequado tem ela para a profissão, o que é incongruente, sendo criada, é chamar-se Lídia, e não Maria. Está já composto Ricardo Reis de vestuário e modos, barba feita, roupão cingido, abriu mesmo meia janela para arejar o quarto, aborrece os odores nocturnos, aquelas expansões do corpo a que nem poetas escapam. Entrou enfim a criada, Bom dia, senhor doutor, e foi pousar a bandeja, menos prodigamente oferecendo do que se imaginara, mas mesmo assim merece o Bragança nota de distinção, não admira que tenha tão constantes hóspedes, alguns não querem outro hotel quando vêm a Lisboa. Ricardo Reis retribui a salvação, agora diz, Não, muito obrigado, não quero mais nada, é a resposta à pergunta que uma boa criada sempre fará, Deseja mais alguma coisa, e, se lhe dizem que não, deve retirar-se discretamente, se possível recuando, voltar as costas seria faltar ao respeito a quem nos paga e faz viver, mas Lídia, instruída para duplicar as atenções, diz, Não sei se o senhor doutor já reparou que há cheia no Caís do Sodré, os homens são assim, têm um dilúvio ao pé da porta e não dão por ele, dormiram a noite toda de um sono, se acordaram e ouviram cair a chuva foi como quem apenas sonha que está chovendo e no próprio sonho duvida do que sonha, quando o certo certo foi ter chovido tanto que está o Cais do Sodré alagado, dá a água pelo joelho daquele que por necessidade atravessa de um lado para outro, descalço e arregaçado até às virilhas, levando às costas na passagem do vau uma senhora idosa, bem mais leve que a saca de feijão entre a carroça e o armazém. Aqui ao fundo da Rua do Alecrim abre a velhinha a bolsa e tira de dentro a moeda com que paga a S. Cristóvão, o qual, para que não estejamos sempre a escrever cujo, tornou a meter-se à água, que do outro lado já há alguém a fazer sinais urgentes. Este não é ancião, teria idade e boa perna para atravessar por seus próprios meios, mas estando tão apurado de trajo não quer que lhe caiam os parentes na lama, que lama mais isto parece que água, e não repara como ficou ridículo, ao lombo do arre-burrinho, com as roupas arrepanhadas, as canelas espetadas para fora das calças, as ligas verdes sobre a ceroula branca, não falta quem ria do espectáculo, até no Hotel Bragança, naquele segundo andar, um hóspede de meia-idade sorri, bem-disposto, e atrás dele, se não nos enganam os olhos, está uma mulher também a rir, mulher é ela, sem dúvida, mas nem sempre os olhos vêem o que deveriam, pois esta parece criada, e custa-nos acreditar que o seja mesmo e de condição, ou então estão a subverter-se perigosamente as relações e posições sociais, caso muito para temer, repete-se, porém há ocasiões, e se é verdade que na ocasião se faz o ladrão, também se pode fazer a revolução, como esta de ter ousado Lídia assomar à janela por trás de Ricardo Reis e com ele rir igualitariamente do espectáculo que a ambos divertia. São momentos fugazes da idade de ouro, nascem súbito, morrem logo, por isso levou tão pouco tempo a cansar-se a felicidade. Foi-se esta já, Ricardo Reis cerrou a janela, Lídia, apenas criada, recuou para a porta, tudo se faz agora com certa pressa porque as torradas estão a arrefecer, a perder a graça, Depois a chamarei para levar a bandeja, diz Ricardo Reis, e isso acontecerá daqui por meia hora, Lídia entra discretamente e sem rumor se retira, mais aliviada de carga, enquanto Ricardo Reis se finge distraído, no quarto, a folhear, sem ler, The god of the labyrinth, obra já citada. Hoje é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas entretidas a debater consigo mesmas as boas acções que tencionam praticar no ano que entra, jurando que vão ser rectas, justas e equânimes, que da sua emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia, ainda que as merecesse o inimigo, claro que é das pessoas vulgares que estamos falando, as outras, as de excepção, as incomuns, regulam-se por razões suas próprias para serem e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo nos primeiros dias de Janeiro teremos esquecido metade do que havíamos prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor é que caia tudo e se confundam os naipes. Por isso é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavra de honra, qualquer pessoa popular sabe que é esta a verdade, Adeus, mundo, cada vez a pior. Mas os deuses de, Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes, para quem o mal e o bem são menos que palavras, por as não dizerem eles nunca, e como as diriam, se mesmo entre o bem e o mal não sabem distinguir, indo como nós vamos no rio das coisas, só deles distintos porque lhes chamamos deuses e às vezes acreditamos.
[...]
Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos. Deixou de chover, o céu aclarou, pode Ricardo Reis, sem risco de molha incómoda, dar um passeio antes do almoço. Para baixo não vai, que a cheia ainda não se retirou completamente do Cais do Sodré, as pedras estão cobertas de lodo fétido, o que a corrente do rio levantou da vasa funda e viscosa, se o tempo se conservar assim virão os homens da limpeza com as agulhetas, a água sujou, a água lavará, bendita seja a água. Sobe Ricardo Reis a Rua do Alecrim, e mal saiu do hotel logo o fez parar um vestígio doutras eras, um capitel coríntio, uma ara votiva, um cipo funerário, que ideia, essas coisas, se ainda as há em Lisboa, oculta-as a terra movida por aterros ou causas naturais, aqui é somente uma pedra rectangular, embutida e cravada num murete que dá para a Rua Nova do Carvalho, dizendo em letra de ornamento, Clínica de Enfermedades de los Ojos y Quirúrgicas, e mais sobriamente, Fundada por A. Mascaró em 1870, a as pedras têm uma vida longa, não assistimos ao nascimento delas, não assistiremos à morte, tantos anos sobre esta passaram, tantos hão-de passar, morreu Mascaró e desfez-se a clínica, porventura algures ainda viverão descendentes do Fundador, ocupados em outros ofícios, quem sabe se já esquecidos, ou ignorantes, de que neste lugar público se mostra a sua pedra de armas, não fossem as famílias o que são, fúteis, inconstantes, e esta viria aqui recordar a memória do antepassado curador de olhos e outras cirurgias, é bem verdade que não basta gravar o nome numa pedra, a pedra fica, sim senhores, salvou-se, mas o nome, se todos os dias o não forem ler, apaga-se, aquece, não está cá. Meditam-se estas contradições enquanto se vai subindo a Rua do Alecrim, pelas calhas dos eléctricos ainda correm regueirinhos de água, o mundo não consegue estar quieto, é o vento que sopra, são as nuvens que voam, da chuva nem se fala, tanta tem sido. Ricardo Reis pára diante da estátua de Eça de Queirós, ou Queiroz, por cabal respeito da ortografia que o dono do nome usou, ai como podem ser diferentes as maneiras de escrever, e o nome ainda é o menos, assombroso é falarem estes a mesma língua e serem, um Reis, o outro, Eça, provavelmente a língua é que vai escolhendo os escritores de que precisa, serve-se deles para que exprimam uma parte pequena do que é, quando a língua tiver dito tudo, e calado, sempre quero ver como iremos nós viver. Já as primeiras dificuldades começam a surgir, ou não serão ainda dificuldades, antes diferentes e questionadoras camadas do sentido, sedimentos removidos, novas cristalizações, por exemplo, Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia, parece clara a sentença, clara, fechada e conclusa, uma criança será capaz de perceber e ir ao exame repetir sem se enganar, mas essa mesma criança perceberia e repetiria cm igual convicção um novo dito, Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade, e este dito, sim, dá muito mais que pensar, e saborosamente imaginar, sólida e nua a fantasia, diáfana apenas a verdade, se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas, milagre é não endoidecerem os homens de cada vez que abrem a boca para falar. É instrutivo o passeio, ainda agora contemplámos o Eça e já podemos observar o Camões, a este não se lembraram de pôr-lhe versos no pedestal, e se um pusessem qual poriam, Aqui, com grave dor, com triste acento, o melhor é deixar o pobre amargurado, subir o que falta da rua, da Misericórdia que já foi do Mundo, infelizmente não se pode ter tudo nem ao mesmo tempo, ou mundo ou misericórdia. Eis o antigo Largo de S. Roque, e a igreja do mesmo santo, aquele a quem um cão foi lamber as feridas da peste, bubónica seria, animal que nem parece pertencer à espécie da cadela Ugolina, que só sabe dilacerar e devorar, dentro desta famosa igreja é que está a capela de S. João Baptista, a tal que foi encomendada a Itália pelo senhor D. João V, tão renomado monarca, rei pedreiro e arquitecto por excelência, haja vista o convento de Mafra, e outrossim o aqueduto das Águas Livres, cuja verdadeira história ainda está por contar. Eis também, na diagonal de dois quiosques que vendem tabaco, lotaria e aguardentes, a marmórea memória mandada implantar pela colónia italiana por ocasião do himeneu do rei D. Luís, tradutor de Shakespeare, e D. Maria Pia de Sabóia, filha de Verdi, isto é, de Vittorio Emmanuele de d'Italia, monumento único em toda a cidade de Lisboa, que mais parece ameaçadora palmatória ou menina-de-cinco-olhos, pelo menos é o que faz lembrar às meninas dos asilos, de dois assustados olhos, ou sem a luz deles, mas informadas pelas companheiras videntes, que de vez em quando aqui passam, de bibe e debaixo de forma, arejando a catinga da camarata, ainda com as mãos escaldadas do último castigo. Este bairro é castiço, alto de nome e situação, baixo de costumes, alternam os ramos de louro às portas das tabernas com mulheres de meia-porta, ainda que, por ser a hora matinal e estarem lavadas as ruas pelas grandes chuvas destes dias, se reconheça na atmosfera uma espécie de frescura inocente, um assopro virginal, quem tal diria em lugar de tanta perdição, dizem-no, pelo seu próprio canto, os canários postos às varandas ou na entrada das tabernas, chilreando como loucos, é preciso aproveitar o bom tempo, sobretudo quando se conta que dure pouco, se outra vez começa a chover esmorece a canção, arrepiam-se as penas, e uma avezinha mais sensível mete a cabeça debaixo da asa e faz que dorme, veio recolhê-la para dentro a dona, agora só a chuva se ouve, está também por aí a tanger uma guitarra, onde seja não o sabe Ricardo Reis, que se abrigou neste portal, ao princípio da Travessa da Água da Flor. Costuma-se dizer do sol que é de pouca e dura quando as nuvens que o deixaram passar logo O ocultam, diga-se também que foi de pouca dura este aguaceiro, bateu forte, mas passou, pingam os beirais e as varandas, as roupas estendidas escorrem, foi tão súbita a pancada da água que nem deu tempo a precaverem-se as mulheres, gritando como é sua combinação, Está a choveeeer, assim se avisando umas às outras, como os soldados nas guaritas, noite fora, Sentinela aleeeerta, Alerta está, Passe palavra, só deu tempo para recolher ''o canário, ainda bem que se resguardou o tenro corpinho, tão quente, olha como lhe bate o coração, jesus, que força, que rapidez, foi do susto, não, é assim sempre, coração que vive pouco bate depressa, de alguma maneira se haviam de compensar as coisas. Ricardo Reis atravessa o jardim, vai olhar a cidade, o castelo com as suas muralhas derrubadas, o casario a cair pelas encostas. O sol branqueado bate nas telhas molhadas, desce sobre a cidade um silêncio, todos os sons são abafados, em surdina, parece Lisboa que é feita de algodão, agora pingando. Em baixo, numa plataforma, estão uns bustos de pátrios varões, uns buxos, umas cabeças romanas, descondizentes, tão longe dos céus lácios, é como ter posto o zé-povinho do Bordalo a fazer um toma ao Apolo do Belvedere. Todo o miradouro é belvedere enquanto Apolo contemplamos, depois junta-se a voz à guitarra e canta-se o fado. Parece que a chuva se afastou de todo. Quando uma ideia puxou outra, dizemos que houve associação delas, não falta mesmo quem seja de opinião que todo o processo mental humano decorre dessa sucessiva estimulação, muitas vezes inconsciente, outras nem tanto, outras compulsiva, outras agindo em fingimento de que o é para poder ser adjunção diferente, inversa quando calha, enfim, relações que são muitas, mas entre si ligadas pela espécie que juntas constituem e parte do que latamente se denominará comércio e indústria dos pensamentos, por isso o homem, entre o mais que seja, tenha sido ou venha a ser, é lugar industrial e comercial, produtor primeiro, retalhista depois, consumidor finalmente, e também baralhada e reordenada esta ordem, de ideias falo, de aí não, então lhe chamaríamos, com propriedade, ideias associadas, com ou sem companhia, ou em comandita, acaso sociedade cooperativa, nunca de responsabilidade limitada, jamais anónima, porque, nome, todos o temos. Que haja uma relação que se entenda entre esta teoria económica e o passeio que Ricardo Reis está dando, já sabemos que instrutivo, é o que não tardará a ver-se, quando ele chegar ao portão do que foi convento de S. Pedro de Alcântara, hoje recolhimento de meninas pedagogicamente palmatoadas, e der com os olhos no painel de azulejos da entrada, onde se representa S. Francisco de Assis, il poverello, pobre diabo em tradução livre, extático e ajoelhado, recebendo os estigmas, os quais, na figuração simbólica do pintor, lhes chegam por cinco cordas de sangue que descem do alto, do Cristo crucificado que paira no ar como uma estrela, ou papagaio lançado por esses rapazitos das quintas, onde o espaço é livre e ainda não se perdeu a lembrança do tempo em que os homens voavam. Com os pés e as mãos sangrando, com o seu lado aberto, segura S. Francisco de Assis a Jesus da Cruz para que não desapareça nas irrespiráveis alturas, lá onde o pai está chamando pelo filho, Vem, vem, acabou-se o tempo de seres homem, por isso é que podemos ver o santo santamente crispado pelo esforço que está fazendo, e continua, enquanto murmura, cuidando alguns que é oração, Não te deixo ir, não te deixo ir, por estes casos acontecidos, mas só agora revelados, se reconhecerá quanto é urgente rasgar ou dar sumiço à teologia velha e fazer uma nova teologia, toda ao contrário da outra, eis no que deram as associações de ideias, ainda há pouco, porque estavam cabeças romanas em miradouro, sendo de belvedere, se lembrou Ricardo Reis do toma do zé-povinho, e agora, na porta de um antigo convento, em Lisboa, não em Wittemberg, encontra as evidências de como e de porquê chama o povinho ao manguito armas de S. Francisco, é o gesto que o desesperado santo faz a Deus por lhe querer levar a sua estrela. Não faltarão cépticos conservadores para duvidarem da proposta, não devemos estranhar, afinal é o que sempre acontece às ideias novas, nascidas em associação. Ricardo Reis rebusca na memória fragmentos de versos que já levam vinte anos de feitos, como o tempo passa, Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia como tu, Nem mais nem menos és, mas outro deus, Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo, Mas cuida não procures usurpar o que aos outros é devido, Nós homens nos façamos unidos pelos deuses, são estas as palavras que vai murmurando enquanto segue pela Rua de D. Pedro V, como se identificasse fósseis ou restos de antigas civilizações, e há um momento em que duvida se terão mais sentido as odes completas aonde os foi buscar do que este juntar avulso de pedaços ainda coerentes, porém já corroídos pela ausência do que estava antes ou vem depois, e contraditoriamente afirmando, na sua própria mutilação, um outro sentido fechado, definitivo, como é o que parecem ter as epígrafes postas à entrada dos livros. A si mesmo pergunta se será possível definir uma unidade que abranja, como um colchete ou chaveta, o que é oposto e diverso, sobretudo aquele santo que saiu são para o monte e de lá volta manando sangue por cinco fontes suas, oxalá tenha conseguido, ao findar o dia, enrolar as cordas e recolher a casa, cansado como quem muito trabalhou, levando debaixo do braço o papagaio que só por um triz não se perdeu, dormirá com ele à cabeceira da cama, hoje ganhou, quem sabe se perderá amanhã. Procurar cobrir com uma unidade estas variedades é talvez tão absurdo como tentar esvaziar o mar com um balde, não por ser obra impossível, havendo tempo e força não faltando, mas porque seria necessário, primeiramente, encontrar na terra outra grande cova para o mar, e essa já sabemos que a não há suficiente, tanto mar, a terra tão pouca. A Ricardo Reis distraiu-o também da pergunta que a si próprio fizera ter chegado à Praça do Rio de Janeiro, que foi do Príncipe Real e quiçá o torne a ser um dia, quem viver verá. Estando calor apeteceria a sombra daquelas árvores, os áceres, os ulmos, o cedro chapéu-de-sol, que parece refrigerante latada, não que este poeta e médico seja assim tão versado em botânicas, alguém tem é de suprir as ignorâncias e as falhas de memória de homem por dezasseis anos habituado a outras e mais barrocas floras, tropicais. Mas a tempo não está para os estivais lazeres, para comprazimentos de terma e praia, a temperatura deve andar pelos dez graus e os bancos do jardim estão molhados. Ricardo Reis aconchega a gabardina ao corpo, friorento, atravessa de cá para lá, por outras alamedas regressa, agora vai descer a Rua do Século, nem sabe o que o terá decidido, sendo tão ermo e melancólico o lugar, alguns antigos palácios, casas baixinhas, estreitas, de gente popular, ao menos o pessoal nobre de outros tempos não era de melindres, aceitava viver paredes meias com o vulgo, ai de nós, pelo caminho que as coisas levam, ainda veremos bairros exclusivos, e só residências, para a burguesia de finança e fábrica, que então terá engolido da aristocracia o que resta, com garagem própria, jardim à proporção, cães que ladrem violentamente ao viajante, até nos cães se há-de notar a diferença, em eras distantes tanto mordiam a uns como a outros. Vai Ricardo Reis descendo a rua, sem nenhuma pressa, fazendo do guarda-chuva bengala, com a ponteira dele bate as pedras do passeio, em conjunção com o pé do mesmo lado, é um som preciso, muito nítido e claro, sem eco, mas de certa maneira líquido, se não é absurda a palavra, dizermos que é líquido, ou assim parece, o choque do ferro e do calcário, com estes pensamentos pueris se distrai, quando de repente se apercebe, ele, dos seus próprios passos, como se desde que saiu do hotel não tivesse encontrado vivalma, e isto mesmo juraria, em consciência, se fosse chamado a jurar, que não viu ninguém até chegar aqui, como é possível, meu caro senhor, uma cidade que nem é das mais pequenas, onde foi que se meteram as pessoas. Sabe, porque lho afirma o senso comum, depositário só do saber que o mesmo senso comum diz ser indiscutível, que tal não é verdade, pessoas não têm faltado no caminho, e agora nesta rua, apesar de tão sossegada, sem comércio, com raras oficinas, há grupos que passam, todos que descendo vão, gente pobre, alguns mais parecem pedintes, famílias inteiras, com os velhos atrás, a arrastar a perna, o coração a rasto, as crianças puxadas aos repelões pelas mães, que são as que gritam, Mais depressa, senão acaba-se. O que se acabou foi o sossego, a rua já não é a mesma, os homens, esses, disfarçam, simulam a gravidade que a todo o chefe de família convém, vão no seu passo como quem traz outro fito ou não quer reconhecer este, e juntamente desaparecem, uns após outros, no próximo cotovelo da rua, onde há um palácio com palmeiras no pátio, parece a Arábia Feliz, estes traçados medievais não perderam os seus encantos, escondem surpresas do outro lado, não são como as modernas artérias urbanas, cortadas a direito, com tudo à vista, se a vista é fácil de contentar. Diante de Ricardo Reis aparece uma multidão negra que enche a rua em toda a largura, alastra para cá e para lá, ao mesmo tempo paciente e agitada, sobre as cabeças passam refluxos, variações, é como o jogar das ondas na praia ou do vento nas searas. Ricardo Reis aproxima-se, pede licença para passar, quem à frente dele está faz um movimento de recusa, vai-se voltar e dizer, por exemplo, Estás com pressa, viesses mais cedo, mas dá com um senhor bem-posto, sem boina nem boné, de gabardina clara, camisa branca e gravata, é quanto basta para que lhe dê logo passagem, e não se contenta com isso, bate nas costas do da frente, Deixa passar este senhor, e o outro faz o mesmo, por isso vemos o chapéu cinzento de Ricardo Reis avançar tão facilmente por entre a mole humana, é como o cisne do Lohengrin em águas subitamente amansadas do mar Negro, mas esta travessia leva seu tempo porque a gente é muita, sem contar que à medida que se vai aproximando do centro da multidão as pessoas abrem caminho mais dificultosamente, não por súbita má vontade, é só porque o aperto quase as não deixa mexerem-se, Que será, interroga-se Ricardo Reis, mas não se atreve a fazer a pergunta em voz alta, acha que onde tanta gente se reuniu por uma razão de todos conhecida, não é lícito, e talvez seja impróprio, ou indelicado, manifestar ignorância, podiam as pessoas ficar ofendidas, nunca há a certeza de como vai reagir a sensibilidade dos outros, e como teríamos tal certeza, se a nossa própria sensibilidade se comporta de maneira tantas vezes imprevisível para nós que julgávamos conhecê-la. Ricardo Reis alcançou o meio da rua, está defronte da entrada do grande prédio do jornal O Século, o de maior expansão e circulação, a multidão alarga-se, mais folgada, pela meia-laranja que com ele entesta, respira-se melhor, só agora Ricardo Reis deu por que vinha a reter a respiração para não sentir o mau cheiro, ainda há quem diga que os pretos fedem, o cheiro do preto é um cheiro de animal selvagem, não este odor de cebola, alho e suor recozida, de roupas raro mudadas, de corpos sem banho ou só no dia de ir ao médico, qualquer pituitária medianamente delicada se teria ofendido na provação deste trânsito. A entrada estão dois polícias, aqui perto outros dois que disciplinam o acesso, a um deles vai Ricardo Reis perguntar, Que ajuntamento é este, senhor guarda, e o agente de autoridade responde com deferência, vê-se logo que o perguntador está aqui por um acaso, É o bodo do Século, Mas é uma multidão, Saiba vossa senhoria que se calculam em mais de mil os contemplados, Tudo gente pobre, Sim senhor, tudo gente pobre, dos pátios e barracas, Tantos, E não estão aqui todos, Claro, mas assim todos juntos, ao bodo, faz impressão, A mim não, já estou habituado, E o que é que recebem, A cada pobre calha dez escudos, Dez escudos, É verdade, dez escudos, e os garotos levam agasalhos, e brinquedos, e livros de leitura, Por causa da instrução, Sim senhor, por causa da instrução, Dez escudos não dá para muito, Sempre é melhor que nada, Lá isso é verdade, Há quem esteja o ano inteiro à espera do bodo, deste e dos outros, olhe que não falta quem passe o tempo a correr de bodo para bodo, à colheita, o piar é quando aparecem em sítios onde não são conhecidos, outros bairros, outras paróquias, outras beneficências, os pobres de lá nem os deixam chegar-se, cada pobre é fiscal doutro pobre, Caso triste, Triste será, mas é bem feito, para aprenderem a não ser aproveitadores, Muito obrigado pelas suas informações, senhor guarda, Às ordens de vossa senhoria, passe vossa senhoria por aqui, e, tendo dito, o polícia avançou três passos, de braços abertos, como quem enxota galinhas para a capoeira, Vamos lá, quietos, não queiram que trabalhe o sabre. com estas persuasivas palavras a multidão acomodou-se, as mulheres murmurando como é costume seu, os homens fazendo de contas que não tinham ouvido, os garotos a pensar no brinquedo, será carrinho, será ciclista, será boneco de celulóide, por estes dariam camisola e livro de leitura. Ricardo Reis subiu a rampa da Calçada dos Caetanos, dali podia apreciar o ajuntamento quase à vol d'oiseau, voando baixo o pássaro, mais de mil, o polícia calculara bem, terra riquíssima em pobres, queira Deus que nunca se extinga a caridade para que não venha a acabar-se a pobreza, esta gente de xale e lenço, de surrobecos remendados, de cotins com fundilhos doutro pano, de alpargatas, tantos descalços, e sendo as cores tão diversas, todas juntas fazem uma nódoa parda, negra, de lodo mal cheiroso, como a vasa do Caís do Sodré.
[...]
Ricardo Reis atravessou o Bairro Alto, descendo pela Rua do Norte chegou ao Camões, era como se estivesse dentro de um labirinto que o conduzisse sempre ao mesmo lugar, a este bronze afidalgado e espadachim, espécie de D'Artagnan premiado com uma coroa de louros por ter subtraído, no último momento, os diamantes da rainha às maquinações do cardeal, a quem, aliás, variando os tempos e as políticas, ainda acabará por servir, mas este aqui, se por estar morto não pode voltar a alistar-se, seria bom que soubesse que dele se servem, à vez ou em confusão, os principais, cardeais incluídos, assim lhes aproveite a conveniência. São horas de almoçar, o tempo foi-se passando nestas caminhadas e descobertas, parece este homem que não tem mais que fazer, dorme, come, passeia, faz um verso por outro, com grande esforço, penando sobre o pé e a medida, nada que se possa comparar ao contínuo duelo do mosqueteiro D'Artagnan, só os Lusíadas comportam para cima de oito mil versos, e no entanto este também é poeta, não que do título se gabe, como se pode verificar no registo do hotel, mas um dia não será como médico que pensarão nele, nem em Álvaro como engenheiro naval, nem em Fernando como correspondente de línguas estrangeiras, dá-nos o ofício o pão, é verdade, porém não virá daí a fama, sim de ter alguma vez escrito, Nel mezzo del camin di nostra vita, ou, Menina e moça me levaram da casa de meus pais, ou, En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, para não cair uma vez mais na tentação de repetir, ainda que muito a propósito, As armas e os barões assinalados, perdoadas nos sejam as repetições, Arma viram que cano. Há-de o homem esforçar-se sempre, para que esse seu nome de homem mereça, mas é menos senhor da sua pessoa e destino do que julga, o tempo, não o seu, o fará crescer ou apagar, por outros merecimentos algumas vezes, ou diferentemente julgados, Que serás quando fores de noite e ao fim da estrada. Era quase noite quando a Rua do Século ficou limpa de pobres. Entretanto Ricardo Reis almoçara, entrou em duas livrarias, hesitou à porta do Tivoli se iria ver o filme Gosto de Todas as Mulheres, com Jean Kiepura, não foi, ficará para outra ocasião, depois regressou ao hotel, de táxi, porque já lhe doíam as pernas de tanto andar. Quando choveu recolheu-se a um café, leu os jornais da tarde, aceitou que lhe engraxassem os sapatos, aparente desperdício de pomada, com estas ruas que as chuvadas bruscamente alagam, mas o engraxador explicou que é sempre melhor prevenir que remediar, o sapato impermeabilizado aguenta muito mais a chuva, senhor doutor, e teria razão o técnico, quando Ricardo Reis se descalçou no seu quarto tinha os pés secos e quentes, é o que se necessita para conservar uma boa saúde, pés quentes, cabeça fresca, embora a faculdade não reconheça estes saberes empíricos não se perde nada em observar o preceito. O hotel está em grande sossego, não bate uma porta, não se ouve uma voz, o besouro emudeceu, o gerente Salvador não atende na recepção, caso fora do comum, e Pimenta, que foi buscar a chave, move-se com a leveza, a imaterialidade de um elfo, é certo que desde manhã ainda não teve que carregar malas, circunstância sobremaneira adjuvante.
[...]
    Quando Ricardo Reis desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto, finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por exemplo, .descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava, muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço, uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes, sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion, mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família, comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si, acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com os dignos hóspedes. Ricardo Reis jantou acolitado por um único criado, e com o maitre decorativamente colocado ao fundo, Salvador instalou-se na recepção a fazer horas para o seu révelion particular, de Pimenta não se sabe onde pára, quanto às criadas dos quartos, ou subiram às mansardas, se as temos, ou aos rebaixos do sótão, que é o mais certo, a beber, em chegando a hora, licorzinhos domésticos e capitosos com bolinhos secos, ou então foram para suas casas, ficando apenas o piquete, como nos hospitais, a cozinha é já uma cidadela evacuada, em tudo isto não há mais que suposições, claro, que um hóspede, no geral, não se interessa por saber como funciona o hotel por dentro, o que quer é o quarto arrumado e a comida a horas, paga. E deve ser bem servido. Não esperava Ricardo Reis que à sobremesa lhes pusessem na frente uma fatia larga de bolo-rei, são estas atenções que fazem de cada cliente um amigo, embora no episódio tenha saído a fava, mas de propósito não foi, o criado sorriu com bonomia familiar e disse, Dia de Reis paga o senhor doutor, Fica combinado, Ramón, era este o nome, será o Dia do Reis, mas Ramón não compreendeu o chiste. Ainda não são dez horas, o tempo arrasta-se, o ano velho resiste. Ricardo Reis olhou a mesa onde vira, dois dias antes, o doutor Sampaio e a filha Marcenda, sentiu que o tomava uma nuvem cinzenta, se ali estivessem hoje poderiam conversar, únicos hóspedes nesta noite de fim e recomeço, nada mais próprio. Reviu na memória o gesto pungente da rapariga, agarrando a mão inerte e colocando-a sobre a mesa, era a sua mãozinha de estimação, a outra, ágil, saudável, auxiliava a irmã, mas tinha a sua vida, independente, nem sempre podia ajudar, para dar um exemplo, esta era a que tocava a mão das pessoas em caso de apresentação formal, Marcenda Sampaio, Ricardo Reis, a mão do médico apertaria a mão da rapariga de Coimbra, direita com direita, a esquerda dele, se quisesse, poderia aproximar-se, participar do encontro, a dela, caída ao longo do corpo, será como se ali não estivesse. Ricardo Reis sentiu humedecerem-se-lhe os olhos, ainda há quem diga mal dos médicos, que por estarem acostumados a ver doenças e infelicidades levam empedernidos os corações, veja-se este que desmente a asserção, talvez por ser poeta, embora da espécie céptica, como se tem visto. Distrai-se Ricardo Reis nestas meditações, porventura algumas mais difíceis de destrinçar para quem, como nós, está do lado de fora, e Ramón, que tanto sabe de umas como de outras, pergunta, O senhor doutor deseja mais qualquer coisa, maneira de falar delicada mas que pretende dizer exactamente o contrário do que se ouviu, insinuar a negativa, porém, somos tão bons entendedores que meia palavra nos tem bastado a todos na vida, a prova é estar Ricardo Reis a levantar-se, dá as boas-noites a Ramón, deseja-lhe um feliz ano novo, e ao passar pela recepção repete a Salvador, com demora, a saudação e o voto, o sentimento é igual, mais explícita a manifestação dele, porque, enfim, este é o gerente. Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho do tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.
[...]
A calçada estava molhada e escorregadia, os carris luziam pela Rua do Alecrim acima, a direito, sabe-se lá que estrela ou papagaio segurarão elas naquele ponto onde a escola diz que se reúnem as paralelas, no infinito, muito grande o infinito tem de ser para que tantas coisas, todas, e de todos os tamanhos, lá caibam, as linhas rectas paralelas, e as simples, e também as curvas e as cruzadas, os carros eléctricos que por estas calhas sobem, e os passageiros que vão dentro deles, a luz dos olhos de cada um, o eco das palavras, o roçar inaudível dos pensamentos, este sinal de assobio para uma janela, Então, desces ou não desces, Ainda não é tarde, disse uma voz lá no alto, se foi de homem ou de mulher, tanto faz, tornaremos a encontrá-la no infinito. Ricardo Reis desceu o Chiado e a Rua do Carmo, como ele muita outra gente descia, grupos, famílias, ainda que o mais fossem homens solitários a quem ninguém espera em casa ou que preferem o ar livre para assistir à passagem do ano, acaso passará mesmo, sobre as cabeças deles e nossas voará um risco de luz, uma fronteira, então diríamos que o tempo e o espaço tudo é um, e havia também mulheres que por uma hora interromperam a mísera caçada, fazem este intervalo na vida, querem estar presentes se houver proclamação de vida nova, saber que porção dela lhes cabe, se nova mesmo, se a mesma. Para os lados do Teatro Nacional, o Rossio está cheio. Caiu uma bátega rápida, abriram-se guarda-chuvas, carapaças luzidias de insectos, ou como se a multidão fosse um exército avançando sob a protecção dos escudos, postos sobre as cabeças, ao assalto duma fortaleza indiferente.
   Ricardo Reis meteu-se pelo ajuntamento, afinal menos denso do que parecera de longe, abriu caminho, entretanto a chuvada cessara, fecharam-se os guarda-chuvas como um bando de aves pousadas que sacudissem as asas antes do repouso nocturno. Está toda a gente de nariz no ar, com os olhos fitos no mostrador amarelo do relógio. Da Rua do Primeiro de Dezembro um grupo de rapazes avança batendo com tampas de panela, tchim, tchim, e outros apitam, estridentes. Dão a volta ao largo fronteiro à estação, instalam-se debaixo da arcada do teatro, sempre a trinar nas gaitas e a bater as latas, e este barulho junta-se ao das matracas que ressoam por toda a praça, ra-ra-ra-ra, faltam quatro minutos para a meia-noite, ai a volubilidade dos homens, tão ciosos do pouco tempo que têm para viver, sempre a queixarem-se de serem curtas as vidas, deixando à só memória um branco som de espuma, e aqui impacientes por que passem estes minutos, tão grande é o poder da esperança. Já há quem grite de puro nervosismo, e o alvoroço recresce quando da banda do rio começa a ouvir-se a voz profunda dos barcos ancorados, os dinossauros mugindo com aquele ronco pré-histórico que faz vibrar o estômago, sereias que soltam gritos lancinantes como animais a quem estivessem degolando, e as buzinas dos automóveis ali perto atroam doidas, e as campainhas dos eléctricos tilintam quanto podem, pouco, finalmente o ponteiro dos minutos cobre o ponteiro das horas, é meia-noite, a alegria duma libertação, por um instante breve o tempo largou os homens, deixou-os viver soltos, apenas assiste, irónico, benévolo, aí estão, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso, são esses os beijos melhores, os que não têm futuro. O barulho das sereias enche agora todo o espaço, agitam-se os pombos no frontão do teatro, alguns esvoaçam estonteados, mas ainda não passou um minuto e já o som vai decrescendo, alguns derradeiros arrancos, os barcos no rio é como se se estivessem afastando pelo meio do nevoeiro, mar fora, e, por disto falarmos lá está D. Sebastião no seu nicho da frontaria, rapazito mascarado para um carnaval que há-de vir, se não noutro sítio o puseram, mas aqui, então teremos de reexaminar a importância e os caminhos do sebastianismo, com nevoeiro ou sem ele, é patente que o Desejado virá de comboio, sujeito a atrasos. Ainda há grupos no Rossio, mas a animação extingue-se de vez. As pessoas deixaram livres os passeios, sabem o que vai acontecer, dos andares começa-se a atirar lixo para a rua, é o costume, porém aqui nem se nota tanto porque nestes prédios já pouca gente vem morando, o mais das casas são escritórios e consultórios. Pela Rua do Ouro abaixo o chão está juncado de detritos, e ainda se lançam janela fora trapos, caixas vazias, ferro-velho, sobras e espinhas que vêm embrulhadas em jornais e nas calçadas se espalham, um potezinho cheio de cinzas ardentes estoirou disparando fagulhas em redor, e as pessoas que passam, agora procurando a protecção das varandas, ao rente dos prédios, gritam para cima, mas isto nem são protestos, o uso é geral, resguarde-se cada qual como puder, que a noite é de festa, de alegria foi o que se pôde arranjar. Atira-se fora o que é inútil, objectos que deixaram de servir e não vale a pena vender, guardados para esta ocasião, esconjuros para que a abundância venha com o ano novo, pelo menos ficará o lugar em aberto para o que de bom possa vir, assim não sejamos esquecidos.
[...]
   Do alto de um prédio alguém gritou, Lá vai obra, teve esse cuidado e atenção, e pelos ares cai um vulto grande, fez um arco, quase bateu nos cabos de energia dos eléctricos, que imprudência, capaz de um desastre, e despedaçou-se violentamente contra as pedras, era um manequim, daqueles de três pés, que tanto servem para casaco de homem como para vestido de mulher, caso é que sejam corpulentos, rompera-se-lhe o forro preto, entrara-lhe sem recurso o caruncho nas madeiras, ali esborrachado pelo choque mal consegue lembrar um corpo, falta-lhe a cabeça, não tem pernas, um rapaz que passava empurrou-o com o pé para a valeta, amanhã vem a carroça e leva tudo, vão as folhas e as cascas, os farrapos sujos, os tachos a que nem já o funileiro ou o deita-gatos poderiam valer, um assador sem fundo, uma moldura partida, flores de pano desbotadas, daqui a pouco começarão os mendigos a rabiscar neste lixo, alguma coisa hão-de eles aproveitar, o que para uns deixou de prestar é vida para outros. Ricardo Reis regressa ao hotel. Não faltam por essa cidade lugares onde a festa continue, com luzes, vinho espumoso, ou verdadeiro champanhe, e animação delirante, como os jornais não se esquecem de escrever, mulheres fáceis ou não tanto, directas e demonstrativas umas, outras que não dispensam certos ritos de aproximação, porém este homem não é um destemido experimentador de aventuras, conhece-as de ouvir contar, se ousou alguma vez, foi entrada por saída. Um grupo que passa em cantoria desafinada gritalhe, Boas festas, ó velhinho, e ele responde com um gesto, a mão no ar, falar para quê, já lá vão adiante, tão mais novos do que eu. Pisa o lixo das ruas, ladeia os caixotes virados, debaixo dos pés rangem vidros partidos, só faltou que tivessem atirado também os velhos pelas janelas com o manequim, não é assim tão grande a diferença, a partir de certa idade nem nos governa a cabeça nem as pernas sabem aonde hão-de levar-nos, no fim somos como as criancinhas, inermes, mas a mãe está morta, não podemos voltar a ela, ao princípio, àquele nada que esteve antes do princípio, o nada é verdade que existe, é o antes, não é depois de mortos que entramos no nada, do nada, sim, viemos, foi pelo não ser que começámos, e mortos, quando o estivermos, seremos dispersos, sem consciência, mas existindo. Todos tivemos pai e mãe, mas somos filhos do acaso e da necessidade, seja o que for que esta frase signifique, pensou-a Ricardo Reis, ele que a explique. Pimenta ainda não se deitara, pouco passava da meia-noite e meia hora. Veio abaixo abrir a porta, mostrou-se admirado, Afinal tornou cedo, divertiu-se pouco, Sentia-me cansado, com sono, Sabe, isto de passagens de ano já não é nada do que foi, Pois não, bonito é no Brasil, diziam estas frases diplomáticas enquanto subiam a escada, no patamar Ricardo Reis despediu-se, Até amanhã, e atacou o segundo lanço, Pimenta respondera, Tenha uma boa noite, e começou a apagar as luzes do andar, apenas deixava as luzes de vigília, depois iria aos outros pisos reduzir a iluminação, antes de se deitar, seguro de que dormiria descansado a noite inteira, não eram horas de chegarem hóspedes novos. Ouvia os passos de Ricardo Reis no corredor, em tão completo sossego dá-se pelo mais leve ruído, não há luz em nenhum quarto, ou neles se dorme já ou estão desocupados, ao fundo brilha tenuemente a chapazinha do número duzentos e um, é então que Ricardo Reis repara que por baixo da sua porta passa uma réstia luminosa, ter-se-ia esquecido, enfim, são coisas que podem acontecer a qualquer, meteu a chave na fechadura, abriu, sentado na sofá estava um homem, reconheceu-o imediatamente apesar de não o ver há tantos anos, e não pensou que fosse acontecimento irregular estar ali à sua espera Fernando Pessoa, disse Olá, embora duvidasse de que ele lhe responderia, nem sempre o absurdo respeita a lógica, mas o caso é que respondeu, disse Viva, e estendeu-lhe a mão, depois abraçaram-se, Então como tem passado, um deles fez a pergunta, ou ambos, não importa averiguar, considerando a insignificância da frase. Ricardo Reis despiu a gabardina, pousou o chapéu, arrumou cuidadosamente a guarda-chuva no lavatório, se ainda pingasse lá estaria o oleado do chão, mesmo assim certificou-se primeiro, apalpou a seda húmida, já não escorre, durante todo o caminho de regresso não chovera. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte do visitante, reparou que Fernando Pessoa estava em corpo bem feito, que é a maneira portuguesa de dizer que o dito corpo não veste sobretudo nem gabardina nem qualquer outra protecção contra o mau tempo, nem sequer um chapéu para a cabeça, este tem só o fato preto, jaquetão, colete e calça, camisa branca, preta também a gravata, e o sapato, e a meia, como se apresentaria quem estivesse de luto ou tivesse por ofício enterrar os outros. Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reencontrado depois da longa ausência, e é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses porquê, perguntou Ricardo Reis, e Fernando Pessoa esclareceu a informação, Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andámos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias nos vão esquecendo um pouco, salvo casos excepcionais nove meses é quanto basta para o total olvido, e agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal. Ricardo Reis tirou a carteira do bolso interior do casaco, extraiu dela um papel dobrado, fez menção de o entregar a Fernando Pessoa, mas este recusou com um gesto, disse, Já não sei ler, leia você, e Ricardo Reis leu, Fernando Pessoa faleceu Stop Parto para Glasgow Stop Álvaro de Campos, quando recebi este telegrama decidi regressar, senti que era uma espécie de dever, É muito interessante e tom da comunicação, é o Álvaro de Campos por uma pena, mesmo em tão poucas palavras nota-se uma espécie de satisfação maligna, quase diria um sorriso, no fundo da sua pessoa o Álvaro é assim, Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, muitas mortes, muita gente presa, temi que a situação viesse a piorar, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me, pronunciei-me, como disse o outro, Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de uma que falhou, agora foge do Brasil por causa de outra que, provavelmente, falhou também, Em rigor, eu não fugi do Brasil, e talvez que ainda lá estivesse se você não tem morrido, Lembro-me de ler, nos meus últimos dias, umas notícias sobre essa revolução, foi uma coisa de bolchevistas, creio, Sim, foi coisa de bolchevistas, uns sargentos, uns soldados, mas os que não morreram foram presos, em dois ou três dias acabou-se tudo, O susto foi grande, Foi, Aqui em Portugal também tem havido umas revoluções, Chegaram-me lá as notícias, Você continua monárquico, Continuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei, É esse o seu caso, É, Boa contradição, Não é pior que outras em que tenho vivido, Querer pelo desejo o que sabe não poder querer pela vontade, Precisamente, Ainda me lembro de quem você é, É natural. Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco Pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas todas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subia escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, Já, Bem, não julgue que tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou de me maçar, Fique um pouco mais, Está a fazer-se tarde, você precisa de descansar, Quando volta, Quer que eu volte, Gostaria muito, podíamos conversar, restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezasseis anos, sou novo na terra, Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois acabou-se, não terei mais tempo, Vistos do primeiro dia, oito meses são uma vida, Quando puder, aparecerei, Não quer marcar um dia, hora, local, Tudo menos isso, Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum, tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo, Ricardo. Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Dois minutos depois, tempo de descer as altas escadas, a porta de baixo bateu, o besouro zumbira rapidamente. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim afastava-se Fernando Pessoa. Os carris luziam, ainda paralelos.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (excerto), José Saramago

Ricardo Reis (Porto, 19 de setembro de 1887 — ?). José Saramago no livro O Ano da Morte de Ricardo Reis situa a morte de Reis em 1936.  

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de junho de 1888 — Lisboa, 30 de novembro de 1935).

José de Sousa Saramago (Azinhaga, Golegã, 16 de novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de junho de 2010).

1936 - Contexto histórico-politico:
- Salazarismo/ Estado Novo, «Revolta dos Marinheiros», em Portugal;
- Início da Guerra Civil em Espanha.

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UNO LITERÁRIO

"UM PIANO NA MINHA RUA..." | Fernando Pessoa

"UM PIANO NA MINHA RUA..." Um piano na minha rua… Crianças a brincar… O sol de domingo e a sua... Alegria a doirar…
A mágoa que me convida A amar todo o indefinido… Eu tive pouco na vida Mas dói-me tê-lo perdido.
Mas já a vida vai alta Em muitas mudanças! Um piano que me falta E eu não ser as crianças!
Fernando Pessoa, Poesias