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"Amar!" - Florbela Espanca

"Amar!" Eu quero amar, amar perdidamente!  Amar só por amar: Aqui... além...  Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...  Amar! Amar! E não amar ninguém!  Recordar? Esquecer? Indiferente!...  Prender ou desprender? É mal? É bem?  Quem disser que se pode amar alguém  Durante a vida inteira é porque mente!  Há uma Primavera em cada vida:  É preciso cantá-la assim florida,  Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!  E se um dia hei de ser pó, cinza e nada  Que seja a minha noite uma alvorada,  Que me saiba perder... pra me encontrar...  Florbela Espanca, Charneca em Flor

"MAR PORTUGUÊS" - Fernando Pessoa

"MAR PORTUGUÊS"  Possessio Maris  I. O Infante  Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.  Deus quis que a terra fosse toda uma,  Que o mar unisse, já não separasse.  Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,  E a orla branca foi de ilha em continente,  Clareou, correndo, até ao fim do mundo,  E viu-se a terra inteira, de repente,  Surgir, redonda, do azul profundo.  Quem te sagrou criou-te português.  Do mar e nós em ti nos deu sinal.  Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.  Senhor, falta cumprir-se Portugal!  II. Horizonte  Ó mar anterior a nós, teus medos  Tinham coral e praias e arvoredos.  Desvendadas a noite e a cerração,  As tormentas passadas e o mistério,  Abria em flor o Longe, e o Sul sidério  ’Splendia sobre as naus da iniciação.  Linha severa da longínqua costa —  Quando a nau se aproxima ergue-se a ...

OS LUSÍADAS - Canto I - Luís de Camões

Os Lusíadas Canto I 1 As armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mi um novo...

"Amor é um Fogo que Arde sem se Ver" - Luís de Camões

"Amor é um Fogo que Arde sem se Ver" Amor é um fogo que arde sem se ver;  É ferida que dói, e não se sente;  É um contentamento descontente;  É dor que desatina sem doer.  É um não querer mais que bem querer;  É um andar solitário entre a gente;  É nunca contentar-se e contente;  É um cuidar que ganha em se perder;  É querer estar preso por vontade;  É servir a quem vence, o vencedor;  É ter com quem nos mata, lealdade.  Mas como causar pode seu favor  Nos corações humanos amizade,  Se tão contrário a si é o mesmo Amor?  Luís Vaz de Camões, Rimas

"Ondados fios de ouro reluzente" - Luís de Camões

"Venere" - Sandro Botticelli "Ondados fios de ouro reluzente" Ondados fios de ouro reluzente, Que, agora da mão bela recolhidos, Agora sobre as rosas estendidos, Fazeis que a sua beleza se acrescente; Olhos, que vos moveis tão docemente, Em mil divinos raios encendidos, Se de cá me levais alma e sentidos, Que fora, se de vós não fora ausente? Honesto riso, que entre a mor fineza De perlas e corais nasce e parece, Se na alma em doces ecos não o ouvisse!... Se, imaginando só tanta beleza, De si em nova glória a alma se esquece, Que será quando a vir?... Ah! Quem a visse… Obras completas de Luís de Camões (1843, v. II)

"Os Cinco Sentidos" - Almeida Garrett

"Os Cinco Sentidos" São belas - bem o sei, essas estrelas,  Mil cores - divinais têm essas flores;  Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:  Em toda a natureza  Não vejo outra beleza  Senão a ti - a ti!  Divina - ai! sim, será a voz que afina  Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.  será; mas eu do rouxinol que trina  Não oiço a melodia,  Nem sinto outra harmonia  Senão a ti - a ti!  Respira - n'aura que entre as flores gira,  Celeste - incenso de perfume agreste,  Sei... não sinto: minha alma não aspira,  Não percebe, não toma  Senão o doce aroma  Que vem de ti - de ti!  Formosos - são os pomos saborosos,  É um mimo - de néctar o racimo:  E eu tenho fome e sede... sequiosos,  Famintos meus desejos  Estão... mas é de beijos,  É só de ti - de ti!  Macia - deve a relva luzidia  Do leito - ser por ce...