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"Os Cinco Sentidos" - Almeida Garrett

"Os Cinco Sentidos" São belas - bem o sei, essas estrelas,  Mil cores - divinais têm essas flores;  Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:  Em toda a natureza  Não vejo outra beleza  Senão a ti - a ti!  Divina - ai! sim, será a voz que afina  Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.  será; mas eu do rouxinol que trina  Não oiço a melodia,  Nem sinto outra harmonia  Senão a ti - a ti!  Respira - n'aura que entre as flores gira,  Celeste - incenso de perfume agreste,  Sei... não sinto: minha alma não aspira,  Não percebe, não toma  Senão o doce aroma  Que vem de ti - de ti!  Formosos - são os pomos saborosos,  É um mimo - de néctar o racimo:  E eu tenho fome e sede... sequiosos,  Famintos meus desejos  Estão... mas é de beijos,  É só de ti - de ti!  Macia - deve a relva luzidia  Do leito - ser por ce...

"Chove? Nenhuma Chuva Cai..." - Fernando Pessoa

"Chove? Nenhuma Chuva Cai..." Chove? Nenhuma chuva cai...  Então onde é que eu sinto um dia  Em que ruído da chuva atrai  A minha inútil agonia?  Onde é que chove, que eu o ouço?  Onde é que é triste, ó claro céu?  Eu quero sorrir-te, e não posso,  Ó céu azul, chamar-te meu...  E o escuro ruído da chuva  É constante em meu pensamento.  Meu ser é a invisível curva  Traçada pelo som do vento...  E eis que ante o sol e o azul do dia,  Como se a hora me estorvasse,  Eu sofro... E a luz e a sua alegria  Cai aos meus pés como um disfarce.  Ah, na minha alma sempre chove.  Há sempre escuro dentro de mim.  Se escuro, alguém dentro de mim ouve  A chuva, como a voz de um fim...  Os céus da tua face, e os derradeiros  Tons do poente segredam nas arcadas...  No claustro sequestrando a lucidez  Um espasmo apagado em ód...