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"Amar!" - Florbela Espanca

"Amar!" Eu quero amar, amar perdidamente!  Amar só por amar: Aqui... além...  Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...  Amar! Amar! E não amar ninguém!  Recordar? Esquecer? Indiferente!...  Prender ou desprender? É mal? É bem?  Quem disser que se pode amar alguém  Durante a vida inteira é porque mente!  Há uma Primavera em cada vida:  É preciso cantá-la assim florida,  Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!  E se um dia hei de ser pó, cinza e nada  Que seja a minha noite uma alvorada,  Que me saiba perder... pra me encontrar...  Florbela Espanca, Charneca em Flor

"O mar dos meus olhos" - Sophia de Mello Breyner

Sophia de Mello Breyner/ f oto: Eduardo Gageiro "O mar dos meus olhos" Há mulheres que trazem o mar nos olhos Não pela cor Mas pela vastidão da alma E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos Ficam para além do tempo Como se a maré nunca as levasse Da praia onde foram felizes Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens... Há mulheres que são maré em noites de tardes... e calma Sophia de Mello Breyner, Obra Poética

"Charneca em Flor" - Florbela Espanca

"Charneca em Flor" Enche o meu peito, num encanto mago,  O frêmito das coisas dolorosas...  Sob as urzes queimadas nascem rosas...  Nos meus olhos as lágrimas apago...  Anseio! Asas abertas! O que trago  Em mim? Eu oiço bocas silenciosas  Murmurar-me as palavras misteriosas  Que perturbam meu ser como um afago!  E nesta febre ansiosa que me invade,  Dispo a minha mortalha, o meu burel,  E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...  Olhos a arder em êxtases de amor,  Boca a saber a sol, a fruto, a mel:  Sou a charneca rude a abrir em flor!  Florbela Espanca, Charneca em Flor