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"Os Cinco Sentidos" - Almeida Garrett



"Os Cinco Sentidos"


São belas - bem o sei, essas estrelas, 
Mil cores - divinais têm essas flores; 
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas: 
Em toda a natureza 
Não vejo outra beleza 
Senão a ti - a ti! 

Divina - ai! sim, será a voz que afina 
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. 
será; mas eu do rouxinol que trina 
Não oiço a melodia, 
Nem sinto outra harmonia 
Senão a ti - a ti! 

Respira - n'aura que entre as flores gira, 
Celeste - incenso de perfume agreste, 
Sei... não sinto: minha alma não aspira, 
Não percebe, não toma 
Senão o doce aroma 
Que vem de ti - de ti! 

Formosos - são os pomos saborosos, 
É um mimo - de néctar o racimo: 
E eu tenho fome e sede... sequiosos, 
Famintos meus desejos 
Estão... mas é de beijos, 
É só de ti - de ti! 

Macia - deve a relva luzidia 
Do leito - ser por certo em que me deito. 
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia 
Sentir outras carícias, 
Tocar noutras delícias 
Senão em ti! - em ti! 

A ti! ai, a ti só os meus sentidos 
Todos num confundidos, 
Sentem, ouvem, respiram; 
Em ti, por ti deliram. 
Em ti a minha sorte, 
A minha vida em ti; 
E quando venha a morte, 
Será morrer por ti. 

Almeida Garrett, Folhas Caídas

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UNO LITERÁRIO

"UM PIANO NA MINHA RUA..." | Fernando Pessoa

"UM PIANO NA MINHA RUA..." Um piano na minha rua… Crianças a brincar… O sol de domingo e a sua... Alegria a doirar…
A mágoa que me convida A amar todo o indefinido… Eu tive pouco na vida Mas dói-me tê-lo perdido.
Mas já a vida vai alta Em muitas mudanças! Um piano que me falta E eu não ser as crianças!
Fernando Pessoa, Poesias